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VIAGEM AO ARTESANATO VIMARANENSE
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/06/2421 leram | 0 comentários | 2 gostam
Certamente, se não fosse a pandemia, realizar-se-ia entre o final de Julho e princípio de Agosto a Feira de Artesanato, nos Jardins da Alameda.
Porém, que sabes do artesanato de Guimarães?
Bem, estamos certos que já ouviste falar da Cantarinha dos Namorados. Por certo, também já conheces os bordados de Guimarães! E, julgamos que não nos engamos se afirmamos que já tocaste as caixas e bombos nicolinos!

De facto, cidade é muito rica no seu património cultural. Basta recordares as suas romarias e tradições, a sua doçaria (como as tortas),as suas lendas, e as suas indústrias tradicionais como os curtumes, as cutelarias ou a indústria dos penteeiros.

Bem, vamos falar-te um pouco de algumas dessas tradições:

BORDADOS

Sim, porque afinal, que sabes dos bordados de Guimarães? As suas cores, os seus motivos, as suas peças?
Ora, as seis cores do bordado de Guimarães são o vermelho, o azul, o branco o preto, o bege e o cinza, com a particularidade que nunca se podem misturar as cores, sendo obrigatório utilizar-se apenas um delas.
Quanto aos motivos, são fundamentalmente elementos da natureza como folhas, flores e grinaldas estilizadas, bordados no linho industrial, embora surjam também corações e desenhos geometrizados, que são desenhados em papel vegetal e depois decalcados para o linho com papel químico.
As peças são também diversas, geralmente decorativas e utilitárias. Deste modo, surgem os guardanapos para tapar os copos, os lenços dos namorados, as toalhas, os jogos de banho, os lençóis, as cortinas e as cobertas, entre muitas outras coisas.
No que se refere aos pontos usados o canutilho está (quase) sempre presente. Mas também podem aparecer os nozinhos, veludo, cheio, formiga, pé de galo, pé de flor ou ponto de cadeia, entre os cerca de 21 pontos certificados.
Porém, se queres saber mais, desloca-te à Loja Oficina, na rua D. Maria II, casa onde nasceu, em 1841, o historiador vimaranense Alberto Sampaio e onde também poderás encontrar livros úteis neste domínio, como “Bordado de Guimarães” ou “As artes e as mãos da História”.
Ou será que existem na Biblioteca Escolar??

CAIXAS E BOMBOS NICOLINOS

Um dos artigos que continua em grande no artesanato vimaranense são as caixas e bombos, não só devido às várias festas na nossa região, mas acima de tudo a uma das tradições únicas: as Nicolinas, seculares festas dos estudantes de Guimarães.
Por isso, entre a última semana de novembro e primeira semana de dezembro, centenas ou até milhares de caixas e bombos saem à rua, em especial no Pinheiro, a anunciar as festas.
José Alves, com oficina nos Carvalhos, na freguesia de Polvoreira, que foi aluno no Agrupamento de Escolas Gil Vicente, é o artesão mais conhecido das caixas e bombos, que continua este trabalho de seu avô e pai que vai já na 3ª. geração.
Mas, afinal, como são feitas as caixas e bombos nicolinos?
Em primeiro lugar quase tudo é feito à mão! Curtem-se e preparam-se as peles de cabrito ou de cabra.
Depois da cura das peles, outros materiais vão dar forma aos instrumentos: a madeira, os metais, as cordas, os cabedais; e as tintas, que, como manda a tradição, deverão pintar a chapa verde e aro de vermelho.
 Tudo manualmente e com ferramentas tradicionais. Realmente, o segredo do toque afinado e do bom timbre está no processo de fabrico, em particular nos materiais utilizados e na sua preparação: no tipo de corda, na madeira para os arcos e as baquetas, na chapa e em especial nas peles criteriosamente escolhidas e tratadas em cura natural, segundo métodos tradicionais que demoram uma a duas semanas em tratamento.
Depois o outro segredo está no treino do tocador, quer no toque de moinas, ou dos novos, quer no toque do Pinheiro ou dos velhos! Ou ainda, no toque do pregão, ou no toque de ofício, cerimónia ou novenas, dois outros toques nicolinos, habituais nestas festas. E, claro, nas batidas corretas das pranas, rebiques e ratas, e na sintonia da caixa com o bombo …
Mas, para além da visita à Casa dos Bombos, uma deslocação à Torre dos Almadas, sede dos Velhos Nicolinos, seria recomendável.

PENTES DE CHIFRES

A indústria de pentes de chifres tem tradições muito antigas e funcionou na zona do Cano, na Rua da Arcela, sendo referenciada por Alberto Vieira Braga como uma das muitas profissões vimaranenses, na sua obra “Administração Seiscentista”.
De facto, a indústria dos penteeiros consta ainda do Regimento Municipal de 1719 onde, depois se estabelecem os preços dos pentes de acordo com os seus feitios e aplicações: de lanceta, de dente redondo, de dente miúdo, de guedelha, etc; posteriormente, marcaria também presença na Exposição Industrial de Guimarães de 1884 e mais tarde, em 1923, na Exposição Industrial e Agrícola Concelhia.
Ora, de facto, estes pentes eram fabricados manualmente. O chifre de boi era cortado transversalmente em argolas que, rachadas por um lado e depois aquecidas ao fogo e imprensadas, formavam placas de pentes. Seguidamente, eram grosados, fendidos, polidos e pintados.
Mais tarde, esta indústria mecanizou-se, chegando mesmo a existir na cidade seis fábricas a vapor e dez de fabrico manual que abasteciam todo o país e exportavam para o Brasil, calculando-se que anualmente se gastavam cerca de 55 mil chifres de boi nesta indústria. Mais recentemente, além dos pentes passaram também a fabricar-se outros artigos como cabos para faqueiros, ou peças decorativos como caravelas, barcos, flamingos, águias, jogos de canecas argolas e pulseiras e até mesas de sala de estar com os respetivos bancos, em especial numa oficina no Lugar do Montinho, nas Caldas das Taipas.
Hoje, a indústria de pentes de chifre está quase extinta, com a coroação do reinado do plástico e as matérias-primas sintéticas. Todavia, ainda há quem procure os pentes de chifres, em especial criadores de cavalos, que os preferem aos pentes de plástico ou alumínio.

No entanto, para saberes mais, tens de visitar a próxima Feira de Artesanato e/ou a Casa da Memória, e participar ativamente em algumas das festas e tradições vimaranenses.

Álvaro Nunes


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