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GUALTERIANAS
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/06/2423 leram | 0 comentários | 3 gostam
Neste ano de 2020, as Gualterianas ou Festas da Cidade estarão confinadas pela pandemia, após uma longa história de avanços e recuos, ao longo dos tempos.
Mas que sabes tu das Festas Gualterianas?
SÉCULO XIII
Se formos ao fundo da questão, ou seja, às origens, as Gualterianas remontam ao século XIII, mais precisamente a 1233, data que se crê S. Gualter se teria instalado na encosta do Monte de Santa Catarina “junto às águas de um regato”, na Fonte Santa., aqui em Urgezes.
Anos mais tarde S. Gualter passaria a ser venerado pelo povo vimaranense, em especial a partir da terrível epidemia que aconteceu nessa época e notícias dos milagres que teria realizado.
Aliás seria o povo que o canonizaria como santo, uma vez que nunca seria reconhecida a sua santificação por parte da Igreja.

1452
Mais tarde, no reinado de D. Afonso V, Guimarães passa a organizar-se uma feira franca anual que seria batizada Feira de S. Gualter, por coincidir com os festejos que então se fazia ao santo.
O Bobo Bibinhas conta-nos como foi:

D. Afonso V, o Africano,
Foi um rei conquistador
Que em África, soberano,
Em Cruzada foi lutador

Tânger e Alcácer Ceguer
Praças de Arzila ou de Anafé
Foram conquistas d’ erguer
A cristandade e levar nossa fé

E em 1452, de 7 a 17 de agosto,
Criaria entre nós a feira franca
Que livre de impostos, faria gosto,
A todo o feirante que abanca
E seria no Campo da Feira
Nesta anual feira de gado
Que S. Gualter por costumeira,
Seria para sempre festejado …

SÉCULO XVI
Porém, Já no reinado de D. Manuel I a Feira de S. Gualter passa a realizar-se entre 15 e 25 de agosto, por solicitação apresentada nas Cortes pelos procuradores vimaranenses.
Contudo, em 1577, a devoção ao santo passa a fixar-se no primeiro domingo de agosto. E, neste mesmo período, é fundada a Irmandade de S. Gualter, bem como é erguida uma capela na Igreja de S. Francisco, que seria demolida em 1750.

ANTES DE 1906
No entanto, só em 1906 as Gualterianas surgem de facto como festas da cidade de forma organizada.
Até aí, a Feira de S. Gualter, limitava-se apenas a uma feira de cavalgaduras, barracas de quinquilharias, rifas e curiosidades e petiscadas, entre as quais sobressaía a vitela assada, numa espécie de arraial popular que durava três dias.
Mais fortes, no século XIX, seriam até as festas de S. João.

1906

Todavia, em 1906 a Associação Comercial toma as rédeas da organização de umas festas da cidade, que há muito vinham sendo pedidas pela população vimaranense.
Deste modo, é constituída uma comissão para recolha de fundos e dividem-se tarefas:
- Abel Cardoso e José Luís de Pina, artistas consagrados, encarregam-se dos projetos de decoração das festas;
- a execução das iluminações é entregue a Emiliano Abreu;
- no Proposto, trabalha-se afincadamente na construção de uma Praça de Touros;
- prepara-se o Regulamento da Feira de Gado, que passa a realizar-se em dois dias separados (uma para gado bovino e outra para gado cavalar);
- Aníbal Vasco Leão compõe o Hino da Cidade, com letra do Padre Gaspar Roriz;
- estabelecem-se comboios extraordinários com tarifas reduzidas com as cidades vizinhas para atrair forasteiros.
Surge a festa na verdade, com ornamentações, bandas filarmónicas, e animações variadas! Entre estas, sobressai um cortejo com balões venezianos iluminados e fogo-de-bengala multicolorido, organizado pelos empregados do comércio. Entretanto, no Toural destaca-se um majestoso arco árabe, desenhado por Abel Cardoso, que dá as boas-vindas aos visitantes.
Era o começo, das Festas Gualterinas, que se manteriam até hoje, apenas interrompidas ou minimizadas em alguns períodos difíceis do país e do mundo.

1907

Sai para a rua o primeiro cortejo da Marcha Milaneza, depois Marcha Luminosa e mais tarde chamada Marcha Gualteriana, sob a orientação do Padre Gaspar Roriz, que se teria inspirado num cortejo luminoso presenciado em Milão., para a qual seria prestimoso a colaboração os “caixeiros”, ou empregados do comércio.

1909

Neste ano, pela primeira vez assistiu-se a um desfile de flores que ficaria conhecido por Batalha de Flores, a que se ajuntaria o Cortejo do Linho; e, em 1910,as festas contariam ainda com a realização de uma exposição agrícola e industrial que enriqueceriam o seu programa.


1911

As festas coincidem com as celebrações do 8º. Centenário de D. Afonso Henriques, altura em que a sua estátua seria transferida do terreiro de S. Francisco para o Toural, e continuam com toda a força durante a década, apenas restringidas às feiras francas nos anos entre 1917 e 1920, devido à I Grande Guerra Mundial e pandemia da gripe pneumónica.

1947

Devido a dificuldades várias, em especial, por causa da II Grande Guerra Mundial. as festas reduziram-se praticamente às feiras francas, ressurgindo apenas com vigor em 1947.
Seria porém neste ano que o recinto da tourada seria destruído por um fatídico incêndio. Mas, em vez de baixarem os braços, os vimaranenses constroem solidariamente uma nova tourada em poucos dias, numa iniciativa que ficaria imortalizada como o “Milagre de Guimarães”

1953

No ano de 1953 os festejos coincidiram com as comemorações do milenário da cidade, ao passo que 1956 se celebram as bodas de Ouro das Festas Gualterinas.

2020

Cerca de 100 anos depois, uma nova pandemia impediria a realização (plena) das Festas Gualterianas.
Mas como diz o Bobo Bibinhas, as festas voltarão, como antigamente, como o povo sempre quis:

Hoje vou falar-vos dum santo
Pelos vimaranenses canonizado
Que na Fonte Santa por recanto
Desde o século XIII é venerado…

S. Gualter de seu nome
Este franciscano amado
Por milagres de renome
O povo quis santificado.

Desde as feiras francas d’outrora
Por El-rei D. Afonso V promulgadas
É este santo, que pelos tempos fora,
Em agosto, nos traz festas animadas…

Salve pois José Pina e Abel Cardoso,
O Aníbal Leão, o padre Gaspar Roriz
Que em 1906 ressuscitaram laborioso
Este festejo que o povo sempre quis!

Curiosamente um culto ao santo que começaria pelos seus milagres contra uma epidemia, que certamente irá de novo atender.

Álvaro Nunes


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