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S. JOÃO VIMARANENSE
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/06/1831 leram | 0 comentários | 2 gostam
Em Guimarães, antes de 1906, altura em que as Festas Gualterianas saltaram para a rua, regenerando as antigas Feiras de S. Gualter, era o S. João uma festa cheia de animação na cidade, em especial no Campo de Feira, em Santa Luzia e na Rua dos Gatos.
De facto, no volume I das “Efemérides Vimaranenses” de Hélder Rocha, refere-se que a 24 de Junho de 1822 “os moradores da populosa Rua dos Gatos, hoje D. João I, promovem grandes festejos no S. João, naquele tempo considerado patrono dos cutileiros de Guimarães”.
Por sua vez, em 1893,regista-se que os festejos de S. João compreenderam, além de brilhantes iluminações, uma bela cascata com S. João Batista e Moisés, constando ainda do programa serenatas, e pirotecnia, cujo fogo seria lançado a meio da encosta da Penha.
De igual modo, houve música por bandas filarmónicas e de Infantaria 20, aquartelada nos Paços dos Duques de Bragança, bem como atividades recreativas diversas, como corridas de sacos. Seria ainda outro motivo de animação a feira de gado vacum e cavalar e o lançamento de balões, em que se tornaria famoso o afamado artista Domingos José da Costa, conhecido por Véstia.
Aliás, terá sido numa dessas festas de S. João, provavelmente em 1896, que o escritor Raul Brandão tentou aproximar-se de Maria Angelina, após a conhecer na Festa das Rosas. Ela própria o conta nas suas memórias, intituladas “Um Coração e uma Vontade”:

“Era noite de S. João, festa popular em que os novos cantam, os velhos riem e a mocidade baila; e percorrendo as ruas da cidade iluminadas pelo clarão vivo das fogueiras, que ardiam toda a noite junto das cascatas, onde o santo era festejado, ingenuamente, pelas crianças, que, saltando, de lado para lado sobre as fogueiras, cantavam, riam, batiam palmas de contentamento.
O Poeta, influenciado pela alegria do dia tão popular, e talvez aconselhado pelo coração procurou encontrar-se comigo, que junto das minhas amigas sorria despreocupada e feliz. Esperando um bom acolhimento, tentou aproximar-se, desejava falar-me, e à luz da iluminação pública e dos balões venezianos que em quantidade, nos festões de Murta, guarneciam as ruas da cidade, deixava ver uma carta querer fugir-lhe da mão entreaberta para a minha que se tornava esquiva.
Ao dirigir-me para casa na companhia de minha mãe e irmãos, seguiu-me, e sob a janela de meu quarto passou horas na ilusão de poder falar-me. Espreitava-o da linda torre onde ficava o meu quarto (…)
Junto duma janela defendida da rua por grossas varas de ferro e, entre cravos brancos, colhidos decerto ao luar, encontrei uma carta … Tomei-a na mão, fixei a letra no envelope onde li o meu primeiro nome: Maria (…)

De facto e desde sempre o S. João está intimamente ao amor romântico, à moda antiga, bem como à cultura popular e aos saberes da tradição oral, como o arqueólogo vimaranense Francisco Martins Sarmento referencia, nos seus cadernos de apontamentos etnográficos, alusivos aos rituais sanjoaninos.
As ervas de S. João são um desses rituais que serviam para livrar as casas dos raios, em dias de trovoada. Para tal, devia-se recolher um ramo com sete ou nove ervas diferentes e ao mesmo tempo dizer:

Toda a erva tem virtude
Na manhã de S. João
Menos o trevo de 4 folhas
Que tem em si a maldição.

Depois, o ramo é queimado e às cinzas dele juntam-se algumas migalhas de pão, que na noite de Natal, ficaram na mesa e se têm guardadas; e quando há trovoada deita-se esta mistura ao lume, para livrar a casa dos raios.
Porém, muitas tradições de S. João estão sobretudo ligadas ao amor, ao namoro. Deste modo, para saber qual dos dois namorados tem mais afeição pelo outro, à meia-noite de S. João juntam-se dois pés de junco (sem os desenterrar) e aparam-se nas extremidades superiores, de modo que fiquem na mesma altura. Um fica representando um dos namorados, o outro, outro. De manhã, antes de nascer o sol, vai ver-se e medir-se. O que tiver crescido é o que tem mais amor.
Por sua vez, o trevo de quatro folhas é também um feitiço eficaz para arranjar casamento, desde que colhido à meia-noite, na noite de S. João. Deste modo, colhido o trevo, mete-se debaixo da pedra de ara. Dita a missa, tira-se e dá-se a comer, um bolo por exemplo à pessoa com quem quer casar.
Outro método consiste em roçar-se o trevo de quatro folhas pelo vestido da amada, ou pela sua cama (sem a mulher sentir), dizendo-se três vezes, de cada vez que se passa o trevo de S. João: “todo o trevo tem virtude/Na manhã de S. João”
O trevo de S. João pode também ser prenúncio de grande fortuna., mas geralmente implica que se vença o diabo, que também o disputa.
Mas este ritual fica só para nós, pois nem todos podemos ser ricos …
Ainda, pelo S- João os carecas podem aspirar pelo “milagre” do crescimento do seu cabelo. Aqui fica a receita:
“Corta-se uma pequena madeixa. À meia-noite (de dia) de S. João ata-se a madeixa ao rebento de uma silva. O cabelo da cabeça, donde saiu a trança, crescerá na dita cabeça na proporção da crescença da silva.

Hoje, o S. João continua vivo em muitas localidades vimaranenses, com outras tradições e outros usos. É o caso o S. João na vila de Brito, na freguesia de S João de Ponte e aqui entre nós, o S. João de Covas, entre Urgezes e Polvoreira.
Porém, os santos populares e o S. João são também motivo para a criação literária, em especial as quadras populares, que tempos atrás o Agrupamento Gil Vicente promovia, acompanhado por um arraial minhoto.
Assim, lançamos-te o desafio de nos enviares uma quadra original, como esta, que prometemos publicar ou meter num manjerico:

Com a pandemia, meu Zé Povinho,
O S. João tem que ficar lá por casa
Mas com caldo verde e verde vinho,
E a pingar no pão, sardinha na brasa …

Texto de Álvaro Nunes


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