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AMBIENTE E PANDEMIAS - e um pouco de História
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/05/2751 leram | 0 comentários | 6 gostam
Os cientistas têm recentemente alertado para as correlações entre ambiente e pandemias.
A passagem dos vírus entre espécies, em especial entre animais selvagens e humanos, desencadeada pela promiscuidade entre ambos, e amplificada pela concentração populacional, em particular nas megacidades, bem como pela concomitante facilidade de transporte propiciada pela globalização, estará na origem da pandemia do Covid-19.
De facto, a partir do momento em que animais selvagens são retirados dos seus habitats e inseridos no ciclo alimentar humano de forma ilegal e sem controlo sanitário, uma cadeia causal da doença, contágio e pânico ocorre nos sistemas sociais. Tal terá sido o caso desta pandemia, proveniente da China, cujo hospedeiro original terá sido o morcego, e que teve no pangolim (uma espécie de tatu), consumido ilegalmente, o hospedeiro intermédio.

No entanto, mais do que tudo, os cientistas têm recentemente alertado para as correlações entre ambiente e pandemias, como o realça a virologista Ilária Capua:

“Três coronavírus diversos em menos de vinte anos representam um forte sinal de alarme. São fenómenos também ligados a mudanças dos ecossistemas: se o meio ambiente é distorcido e perturbado, o vírus passa a dispor de novos hospedeiros”.

Alias, as mudanças de clima e dos ecossistemas tinham já sido equacionados em 2007 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como fatores de risco. Efetivamente “outros coronavírus como o da SARS e da NERS e outros vírus particularmente agressivos e perigosos como o HIV, e o ébola, estão aqui para testemunhar isso”
Assim, destruir a natureza acarreta impactos negativos sobre a nossa saúde, pois “quando intervimos num ecossistema e o danificamos, ele encontrará um novo padrão de equilíbrio. E isso é uma lei natural. E Isso traz consequências patológica ao ser humano”.
No mesmo sentido, David Quammen, autor do best-seller “Spilloven - A Evolução das Pandemias”, explica bem este mecanismo, na entrevista concedida à revista “Wired”:
“As razões pelas quais assistiremos no futuro a outras crises como esta que vivemos na atualidade têm a ver com o facto dos nossos sistemas naturais estarem repletos de muitas espécies de animais, plantas e outras criaturas, cada uma das quais possui em sem organismo uma quantidade de vírus únicos (…) que podem contaminar os seres humanos. Como estamos a invadir e a alterar esses ecossistemas com ímpeto cada vez maior expomo-nos desse modo aos novos vírus.
Ora, quando um vírus afeta um “spillover”,verifica-se um salto entre espécies de um portador animal não-humano a seres humanos, que se adapta em seguida para fazer a transmissão humano-humano; pode dizer-se que aquele vírus ganhou a lotaria, pois existe agora na face da Terra uma população de 7,7 biliões de indivíduos que vivem em altas densidades demográficas e que podem viajar por longas distâncias, aumentando as oportunidades de difusão desse vírus.”
O degelo das zonas polares e afins é também outro ponto em alerta vermelho. Basta recordar que recentemente os cientistas encontraram no interior de amostras de gelo, formadas há 15 mil anos no planalto tibetano, 33 vírus, 28 dos quais desconhecidos. Igualmente, traços da gripe espanhola foram encontrados congelados no Alasca, enquanto fragmentos de DNA da varíola estavam escondidos em porções de permafrost, ( solo permanentemente congelado), que é um ambiente perfeito para a conservação de vírus e bactérias, que o aquecimento global pode libertar. Aliás, terá sido o que aconteceu na Sibéria em 2016, quando o antraz infetou dezenas de pessoas e causou a morte de um adolescente e de cerca de mil renas.
Deste modo, clima e infeções viajam juntos, como o divulga o documento “Lancet Countdown Report 2019 “, ao associar a mudança climática a um aumento da disseminação das doenças infeciosas. Tese também corroborada no “Relatório Greenpeace sobre o aquecimento da Terra”, há cerca de 30 anos, no qual o epidemiologista Andrew Haines avisa para os efeitos colaterais das mudanças climáticas.

Assim, pelas mais variadas razões, as pandemias foram ao longo dos séculos altamente devastadoras e mortíferas. Com efeito, da Peste Negra na Idade Média, causada por ratos, que dizimou cerca de metade da população europeia até à varíola e cólera no século XIX e pandemias mais recentes como a gripe suína e aviária, o ébola em África ou o dengue, o planeta tem sido periodicamente assolado por estes flagelos, sempre que o homem infringe as leis da Mãe-Natureza.
Porém, seria há cerca de cem anos atrás, a cidade, o país e o mundo viveriam umas das mais letais pandemias. De facto, a ajuntar às dificuldades da I Grande Guerra, um outro inimigo traiçoeiro, avançaria das trincheiras da desgraça: a gripe pneumónica, que em Portugal condenaria à morte milhares de portugueses e milhões de pessoas em todo o mundo.
 O jornal “O Comércio de Guimarães” de 28 de setembro assinalaria essa chegada indesejável ao burgo vimaranense:

“Mais calamidades! Grassa com grande intensidade uma doença a que chamam gripe broncopneumónica. (…) Esta terrível pandemia chegou também, já, até nós. Há casas onde se acham atacadas oito pessoa, algumas das quais se encontram em estado grave. Tem havido já alguns óbitos. Estamos, pois, a conta com os três piores flagelos: a peste, a fome e a guerra”.

Realmente, entre o início da doença até ao final do ano de 1918,terão sido afetados em Guimarães cerca de dois milhares de pessoas, a que se ajuntaria uma crise de subsistência: Não há açúcar, não há petróleo, não há arroz, não há feijão, não há sabão! (…)
Também nessa época as autoridades proibiriam durante algum tempo a celebração de missas ou outros atos religiosos, sendo ainda cancelados os espetáculos, feiras, e fechadas as escolas, entre outras medidas preventivas para evitar o contágio, cujas restrições se estenderiam inclusive à proibição do toque de finados; e aos enterros diurnos.
Inclusive, nesse período, seria também proibida a realização da Peregrinação à Penha e as próprias Nicolinas, acabariam por ser “enterradas” como o Pinheiro:

Hoje, os tempos são outros e felizmente, temos mais conhecimentos científicos e melhor saúde, melhor proteção social e informação, bem como mais defesas.
Porém, temos que aprender a viver com as lições do passado e a respeitar a ciência …

Por Álvaro Nunes


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