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SÍTIOS DA NOSSA TERRA: O TOURAL (I)
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/05/20549 leram | 0 comentários | 116 gostam
O nosso Toural é um dos espaços simbólicos e patrimoniais mais emblemáticos de Guimarães e um dos sítios com História que por certo não conheces totalmente.
Realmente ,e de facto, o que sabes sobre o Toural, um dos nossos sítios mais badalados pelos sinos da Basílica de S. Pedro, que diariamente toca o Hino da Cidade, ao meio-dia?
Bem, as referências ao Toural recuam até 1498, embora se acredite que teria sido no século XVI que este terreiro, fora das muralhas de Guimarães, recebeu este nome.
Ora, como sabes, antigamente a nossa cidade possuía duas cinturas de muralhas: uma mais interior, antiga e pequena, rodeando a Colina Sagrada; e outra exterior, mais recente e mais robusta, da qual ainda hoje temos testemunhos, ao longo da Avenida Cónego Gaspar Estaço e ainda na Torre da Alfândega, no pano de muralha na qual se encontra o dístico “Aqui nasceu Portugal”.
Pois caberia a este terreiro, no exterior das muralhas, a denominação de Toural. Ali, seria costumeiro realizarem-se feiras de gado bovino e a venda de produtos ao ar livre e até corridas de touros (às quais o largo teria ido buscar o seu nome)!
Sim, touradas, não estou enganado! Principalmente em algumas datas festivas, como no Corpo de Deus, ou até no Natal, como o relata o jornal “Religião e Pátria” de 28 de dezembro de 1867:

“Foi quarta-feira a primeira corrida de touros. A praça estava apinhada de gente, curiosa de um espetáculo novo para a maior parte. Afinal o espetáculo foi de riso. Os bois eram mais mansos que ovelhas, e mais timoratos que pombinhas. De quatro bravíssimos arrastados por cordas para o meio da praça, nem um se prestou a uma sorte, mas todos embirravam em entrar de novo no curro, donde tinham sido arrastados. Os espectadores riram da caçoada, o apuparam os caçoantes. Agora anunciam-nos corridas em forma, com bois da Borda de Água que de propósito vão ser contratados.
Esperemos para ver”.

Porém, como é lógico, o Toural mudou muito e teve várias caras ao longo dos tempos! Já foi um terreiro, jardim, praça ou largo de convívio e festa. E continua a ser a sala de visitas da cidade, hoje com um novo aspeto e “mobília”.
Efetivamente, a “dança” das estátuas e monumentos tem sido costumeira no (nosso) Toural.
Por exemplo, sabias que a estátua de D. Afonso Henriques já lá esteve (no Toural), depois de ter sido inaugurada pelo rei D. Luís, no terreiro de S. Francisco, em 20 de outubro de 1887?
 De facto, quando Guimarães celebrava o oitavo nascimento do rei fundador, em 1911, esta estátua de Afonso Henriques, de autoria do escultor Soares dos Reis, seria transferida do Largo de S. Francisco para o Toural.
Antes porém, na segunda metade do século XIX, já o Toural se havia transformado num espaço verde, cercado com grades e portões de ferro, que era fechado à noite. Curiosamente, um lugar chique, no qual (está admirado?!), não era permitido circularem pessoas descalças nem homens sem gravata! Todavia, perante vários protestos, estas proibições acabariam por ser retiradas, assim como as grades. De igual modo, de lá sairia o coreto existente desde 1880, que seria transferido para o terreiro de S. Francisco; e abandonado e destruído o lago de peixinhos vermelhos que também lá existiu!
 Todavia, a estátua do primeiro rei não ficaria por muito tempo no Toural. Assim, em de 21 de maio de 1940, a estátua de D. Afonso Henriques seria apeada e implantada no seu “ambiente próprio”, junto ao castelo, onde hoje ainda se encontra.

Contudo, nem só a estátua do rei Afonso andou em bolandas, de um sítio para outro! De facto, existiu também no Toural um chafariz executado em 1583, segundo risco do mestre de pedraria vimaranense Gonçalo Lopes. Um chafariz em estilo maneirista, com três taças, que em 1873 seria retirado para o Jardim do Carmo. Isso mesmo, o chafariz à volta do qual, tradicionalmente, se elege a Comissão de Festas Nicolinas.
Mas, esse é o chafariz que hoje está novamente no Toural!? - dirás surpreendido.
Pois, de facto, assim é! …
Mudam-se os tempos e as vontades, como diria Camões, e de novo o chafariz regressaria ao Toural, em 2012, aquando da consagração de Guimarães como Capital Europeia da Cultura.
Mas não parariam por aqui as mudanças, geralmente ao sabor dos acontecimentos e ocorrências marcantes da cidade
Foi o caso do ano de 1953, data da comemoração do Milénio de Guimarães e do Centenário da Elevação de Guimarães a Cidade.
 Efetivamente, nesse ano seria colocada no Toural uma fonte escultórica simbolizando a Vitória, (a vitória e não o Vitória) do escultor vimaranense Sequeira Braga.
 No entanto, também esta escultura já lá não está, replicarás tu! De facto, em 2012, seria transferida para a Alameda Doutor Alfredo Pimenta, defronte à Escola Secundária Francisco de Holanda.
Entretanto, neste mesmo ano de 1953, o Toural assistiria ainda à inauguração, no seu território, do Café Milenário (assim chamado pelos festejos do Milénio de Guimarães).
 E, no início o século XX, começavam a sentir-se os primeiros problemas de trânsito e estacionamento automóvel no Toural, que também chegou a ter aí instalada uma bomba de gasolina.
É óbvio que os problemas de estacionamento, não terão sido por “culpa” de Bernardino Jordão, que em 13 de março de 1904 terá adquirido um dos primeiros automóveis comprados por um “vimaranense”.
Realmente, ao longo dos tempos, o Toural passaria por várias mudanças e teve em si mesmo várias configurações e aspetos. De facto, desde a atual fachada pombalina do lado nascente, que só seria construída após a demolição da muralha existente, após 1793, até toda a parte norte reconstruída depois do terrível incêndio ocorrido na madrugada de 4 de junho de 1869, que no Toural, quase sempre, algo se perde e algo transforma. Mesmo na parte poente, onde se manteria o palacete dos fidalgos do Toural, mas que a posterior construção da Igreja de S. Pedro, obrigaria a alterar.

Por Álvaro Nunes

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