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QUATRO POEMAS PARA CELEBRAR A PÁSCOA
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/04/01999 leram | 0 comentários | 140 gostam
Apesar de tudo, a Páscoa ainda é o que era!
Vamos pois celebrá-la, embora à distância, na proximidade destes poemas de vários autores e sensibilidades.
PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança
(também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde a alegria
Em cada pulsação.

MIGUEL TORGA,(Diário XVI)




QUEM

Não sei como ressuscitou
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém espera.
Ou seninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.

MANUEL ALEGRE

 



PÁSCOA NA ALDEIA

Minha aldeia na Páscoa
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja,
Entre árvores alveja
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores …
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa,
Rasgados pelo sol os negros véus,
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores,
Ressurreição de Deus! (…)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras,
Rebrilha a cruz de prata florescida …
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras …
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com ano, visita as rústicas choupanas,
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca; Aleluia! Aleluia! (…)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus
E mães, acalentando os filhos no regaço,
Esperam o compasso …
E, ajoelhando com séria devoção,
Beijam os pés da Cruz.

TEIXEIRA PASCOAES



PÁSCOA NO MINHO
É tempo de Páscoa do Minho florido
Já se ouvem os trinos dos sinos festeiros
Na igreja vestida de branco vestido.
Entre o verde manso dos altos pinheiros.

Caminhos de aldeia, que o funcho recobre
Esperam cheirosos, que passe o “compasso”,
À casa do rico, cabana do pobre …
Já voam foguetes e pombas no espaço!

Lá vêm dois meninos, com opas vermelhas,
Tocando a sineta. Logo atrás, o abade
Já trôpego e lento. (As pernas são velhas?
Mas no seu sorriso tudo é mocidade.)

Com que unção o moço sacristão, nos braços
Traz a cruz de prata que Jesus cativa,
Para ser beijada! Enfeitam-na laços
De fitas de seda e num rosa viva.

Um outro, ajoujado, ao peso das prendas
(Não há quem não tenha seu pouco para dar …)
Traz um largo cesto de nevadas rendas
Os ovos, o açúcar e os pães do folar.

Mais um outro, ainda, o hissope e caldeira
Cheia de água benta, abre um guarda-sol.
Seguem-nos, e alegram céu e terra inteira,
Estrondos de bombos e gaitas de fole.

Haverá visita mais honrosa e bela?
Famílias ajoelham. A cruz é beijada.
(Pratos de arroz-doce, com flores de canela,
Aguardam gulosos nas mesas enfeitadas).

Santa Aleluia! Oh, festa maior!
Haverá mais bela e honrosa visita?
É tempo de Páscoa. O Minho está em flor,
Em cada alma pura Jesus ressuscita.

ANTÓNIO M. COUTO VIANA


Seleção de poemas por Álvaro Manuel Nunes


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