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DIA MUNDIAL DA POESIA e DIA MUNDIAL DA ÁRVORE
Por António Loureiro (Professor), em 2016/03/041722 leram | 0 comentários | 126 gostam
21 de março é o Dia Mundial da Poesia e o Dia Mundial da Árvore. Divulgar a poesia e recordar o poeta Álvaro Feijó, no centenário do seu nascimento, pretende ser este contributo, nestas duas efemérides comuns.
Efetivamente, que se saiba, não existem incompatibilidades entre a poesia e as árvores, uma vez que todas elas emanam fragâncias poéticas e toda a poesia assume o porte de uma árvore. De facto, há em cada flor ou fruto o mistério da poesia e nas suas raízes profundas, uma seiva intrínseca e identitária, como se sente neste poema de Saúl Dias:

Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
 dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste)…
 
Deste modo, porque não enfeitar as árvores com poemas sobre elas próprias?!
 As sugestões são muitas e variadas: “Árvores do Alentejo” de Florbela Espanca, “Árvore Rumorosa” de Ruy Belo, ou simplesmente “Árvores” de Sophia de Mello Breyner. Mas as escolhas podem também incluir Camões e o soneto “Árvore, cujo pomo, belo e brando”, Olavo Bilac com as suas “Velhas Árvores” ou “Cada árvore é um ser para ser em nós” de António Ramos Rosa. Mas também José Gomes Ferreira e a composição poética “Vivam apenas” , ou Miguel Torga com o seu poema “A um negrilho”, entre muitos outros.

Centenário de um poeta

Álvaro Feijó (1916-1941), nascido em Viana do Castelo e falecido precocemente com apenas 24 anos, vítima de tuberculose, é neste centenário do seu nascimento o poeta que aqui e agora recordamos, nas três obras que o seu curto tempo de vida permitiu nos legasse; “Primeiros Versos” (1936/1940), “ Corsário” e “Diário de Bordo”, ambos de 1940,
 todas elas compiladas pela coleção Novo Cancioneiro, sob a denominação de “Poemas de Álvaro Feijó”, cuja edição data do ano da sua morte.

Porém, na sua obra, curta tal como a sua vida, AF lega-nos , sob a influenciado por seu tio-avô António Feijó (1859-1917), introdutor do parnasismo francês no nosso país, um interessante lirismo neorromântico e finissecular, na esteira de António Nobre ou Guerra Junqueiro, que concilia a tradicional expressão amorosa com as preocupações sociais de um período histórico marcado pela Guerra Civil de Espanha e o início da II Guerra Mundial.
  
De facto, há na sua obra, particularmente em “Corsário”, único livro publicado em vida, um apelo à reforma da sociedade e da justiça social, que prenunciam valores temáticos de cariz neorrealista, como é evidente no poema “Prece”: “Ó senhora da noite!/tu que cobres /pés descalços e corpos mal vestidos/Ó senhora da noite!/tu que apagas/aluz febril dos olhos que têm fome” – poema que mais parece uma oração laica de denúncia social.

 Esta tónica mantém-se em “Diário de Bordo”, obra em que perpassa um sarcasmo feroz e uma fina ironia de tipo queirosiano à vida mundana e frívola da aristocracia, à qual o poeta pertence e deseja demarcar-se: “calcorreei a estrada, encadernado/de senhor feudal e, quando eu passava, lentamente,/ desbarretavam-se as gentes, temerosas (…)”. Com efeito, dividido entre a sua condição social de aristocrata e as exigências da transformação social, AF procura o seu caminho poético “buscando o fim da estrada que, sem fim/não sei, eu próprio, ainda, onde vai dar” …
Contudo, AF acaba por saltar a trincheira, pois “ a miséria é tão grande do meu lado/que me apetece ir combater/do lado dos inimigos”; uma opção que assume, ao decidir, “que mais vale morrer do outro lado/onde se morre mais limpo”.
 
Na maioria dos seus poemas, flui ainda a imagética do mar, mesmo na poesia de cariz (aparentemente) mais religiosa, como “Nossa Senhora da Apresentação”, que além de uma notável perfeição de fundo e forma, constitui uma súmula dos vetores temáticos neorrealistas: “O altar das vagas,/o dossel a espuma!/Missas rezadas pelo vento,/ora pelos fiéis defuntos que se foram/noutras vagas (…)ELA/ Nossa Senhora da Apresentação/ Aquela/que não tem mantos da cor do céu/nem fios de ouro nos cabelos/nem anéis nos dedos; (…)/Entre círios de estrela, Nossa Senhora da Apresentação/e Justificação/- a Fome!”.

 Paralelamente a esta faceta mais social, AF deixa-nos também uma produção literária centrada na subjetividade do “eu” e na temática do amor, à laia camoniana, centrado na dicotomia entre o amor carnal e amor espiritual, embora tendencialmente petrarquista, que corresponde aos seus poemas de adolescência, como é o caso deste soneto: “Quando eu morrer – e hei de morrer primeiro/Do que tu - não deixes de fechar-me os olhos/Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos/ E ver-te-ás de corpo inteiro/ Como quando sorrias no meu colo./E, ao veres que tenho toda a tua imagem/Dentro de mim, se, então tiveres coragem/ Fecha-me os olhos com um beijo./Farei a nebulosa travessia/E o rastro da minha barca/Segui-los-á em pensamento/Abarca nele o mar inteiro, o porto, a ria …/E, se me vires chegar ao cais dos céus,/Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus”

Recordar AF é portanto celebrar a poesia, porque como nos diz João José Cochofel, “ abriste os olhos sobre o nosso mundo, porque cantaste a rua, a fome, o sofrimento, mas sobretudo porque os soubeste cantar, sem o que nunca conseguirias que toda a gente visse, sentisse e sofresse só de ver sofrer” ., como se consuma no poema “Natal”::
 
Nasceu,
Foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro.
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há de ter
muitos reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.
Ninguém há de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Salve a árvore, viva a poesia …

Álvaro Nunes


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