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A POESIA ESTÁ NA RUA
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2019/04/2646 leram | 0 comentários | 9 gostam
“Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade”

De facto, Jorge de Sena (1919-1978) não morreria sem conhecer a cor da liberdade. E chega mesmo a responder:

“Qual a cor da liberdade?
Verde, verde e vermelha!”
Verde e vermelha como a cor da nossa bandeira
Realmente, nesse dia de 25 de Abril de 1974, dar-se-ia início da caminhada rumo à liberdade e ao processo democrático em curso, na diversidade das suas cores, que a população nesse mesmo dia sufragaria nas ruas:

“Como um rio que busca voraz a foz
O povo apedrejou nas ruas o feroz algoz,
Dedos de vitória punhos cerrados,
Em rostos de sonho e braços dados.

Então, nas praças cresceram rubros cravos,
Bandeiras de sangue, lágrimas d’euforia,
Palavras interditas cantaram sons escravos
Abrindo algemas e cartas d’alforria …

E um mar de vontades inundou a cidade
Num Abril de fogo, maio em erupção!
E uma lava de fraternidade e liberdade
Correu desenfreada, solidificando a nação …

Era o mestre de Avis, Salgueiro Maia,
Otelo, aclamações, manifestações,
Era a voz rouca das gentes d’arraia
Em gritos de ordem e reivindicações”.
(Álvaro Nunes)

De facto, como canta o poeta Ary dos Santos no poema “As Portas que Abril abriu”, “foi esta força viril/que antes quebrar que torcer/que em vinte e cinco de Abril/fez Portugal renascer”.
Efetivamente, o renascimento do velho Portugal glorioso dos tempos de outrora, contra “a apagada e vil tristeza”, bem como as causas da democracia e da liberdade, a par com o desenvolvimento e a descolonização, eram as bandeiras de vanguarda da Revolução de Abril.
Liberdade, contudo, que urge construir dia a dia, pois como canta Sérgio Godinho, “só há liberdade a sério quando houver/a paz o pão/habitação/saúde educação”.

Ora, realmente, a poesia tem sido ao longo dos últimos tempos uma arma. Usou-a Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, Jorge de Sena, entre muitos outros poetas. Uma arma de arremesso que ainda hoje se mantém atual, como Sophia já previa em 1977, contra o populismo e a demagogia que tem grassado um pouco, ao longo destas décadas:

“Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo de palavras
(…)
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se faz com o trigo e com a terra”-

De facto, “Nesta Hora”, assim se intitula um outro poema da citada poetisa (como aliás em todas as horas) “é preciso dizer a verdade toda/Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo/Pois é preciso ´que o povo regresse do seu longo exílio”(…). E, avisa:“Meia verdade é como habitar meio quarto/Ganhar meio salário/Como só ter direito/A metade da vida”

Porque, realmente, a vida é para viver por inteiro, sem sofismas: “de nenhum fruto queiras só metade”, disse Torga no seu poema “Sísifo”. Por isso, é muitas vezes preciso recomeçar sem desistências e lutar até ao fim contra as prepotências e os desmandos.
 Porém, infelizmente, como escreve o poeta vimaranense Carlos Poças Falcão, cuja obra “Sombra Silêncio” foi recentemente premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores como o “Melhor Livro de Poesia”, atemo-nos geralmente ao silêncio ou ao“Manifesto Mínimo”:

“Neste humanismo abafa-se – e não sem um tremor
armamo-nos dos verbos de um programa insubmisso:
calar e apagar, desconectar, desaparecer.
Manda a democracia que falemos? Nós calamos.
Exige o espetáculo mais brilho? Apagamo-nos.
Devemos estar em rede e ao serviço? Desligamo-nos.
A Coisa Absurda chama-nos? Ah, não comparecemos!”

No entanto, como sabemos, a democracia exige (cada vez mais) participação crítica e cívica, mesmo que os tecnocratas e burocratas europeus nos queiram impor a verdade única e mastigada, ou os demagogos populistas nos queiram impingir as fake-news de encomenda!
É preciso que a poesia volte à rua, pois, como advoga a poetisa Hélia Correia, “só assim será poema/só assim será razão/só assim te vale a pena/passá-lo de mão em mão”, ou seja, só assim será “pedra e alarme”, sonho e utopia e terá pernas para andar em direção a um “Abril de Sim Abril de Não”

“Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi o Abril em festa e o Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
.
 Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.”

In, “30 Anos de Poesia” – Manuel Alegre

Portanto, passados estes 45 anos de Abril, (idade da maturidade), importa voltar ao “chão puro: algarves de ternura”-, como Alegre canta; e seguir o exemplo d’ “aquele que na hora da vitória/respeitou o vencido/Aquele que deu tudo e não pediu a paga/Aquele que na hora da ganância/Perdeu o apetite/Aquele que amou os outros e por isso/Não colaborou com a sua ignorância ou vício/Aquele que foi fiel à palavra dada à ideia tida” (…), isto é, seguir essa coluna de chaimites comandada por Salgueiro Maia, que o poema homónimo de Sophia conduz.

Só assim teremos o “25 de Abril Sempre”:

Como o sal do pão, a água da fonte
Como a alvorada da criação dos dias,
A maçã original, a ponte no horizonte
A terra prometida e o filho que pedias.
(Álvaro Nunes)


Texto
de
Álvaro Nunes


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