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QUEM FOI O CONDE DE MARGARIDE?
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2019/03/2524 leram | 0 comentários | 5 gostam
No próximo dia 30 de julho passam cem anos sobre o falecimento do Conde de Margaride, uma importante figura do constitucionalismo monárquico e personagem do conflito brácaro-vimaranense.
Nascido em Azurém a 8 de janeiro de 1836, filho de Henrique Cardoso Macedo e Luísa Ludovina Martins, o cidadão Luís Cardoso Martins Macedo, mais conhecido como o Conde de Margaride, foi Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real desde 1862, sucedendo a seu pai, e elevado à condição de conde em 1877. Porém, mais importante que os seus títulos honoríficos e nobiliárquicos, foi a sua carreira administrativa e política.
Com efeito, o Conde de Margaride seria Par do Reino, de acordo com a carta régia de 29 de dezembro de 1881, e destacar-se-ia na Câmara dos Pares, em especial na Comissão de Agricultura. Salientam-se, entre as suas intervenções políticas, o discurso proferido durante a crise financeira de 1892 e a questão do Ultimato Inglês, do qual respigamos esta esclarecedora passagem:
“Nós não enfrentamos só um défice, mas três: o défice de juízo, o défice de moralidade e, como consequência. o défice de dinheiro”
No entanto, seria ao serviço da sua cidade-berço e região que o conde mais sobressairia. Efetivamente, o Conde de Margaride exerceria funções de Governador Civil de Braga entre 1871 e 1877 e ainda de Governador Civil do Porto, em 1878, cargo que abandonaria a seu pedido.
Em Guimarães, assumiria ainda funções de Presidente da Câmara em 1870 e posteriormente entre 1887 e 1892.
Refira-se, entre outras deliberações camarárias, a datada de janeiro de 1887, e o decorrente acordo celebrado de cedência do Convento de Santa Clara ( atual edifício camarário), que, como combinado, sucederia logo que a última freira clarissa falecesse. Relevante seria também a sessão promovida no Teatro D. Afonso Henriques, em 24 de fevereiro de 1887, convocada expressamente para analisar e contestar o projeto de incorporação no Estado dos bens da Colegiada, ou ainda o comício popular realizado em 14 de Julho de 1886, no auge do conflito com Braga.
Realmente, neste comício defender-se-ia a tese de que “Guimarães não quer nada com Braga” e propor-se-ia a supressão dos distritos e a sua substituição por organizações provinciais “como se decretou na Constituição de 1820, como se estabeleceu no decreto de 1823 e como aconselham várias capacidades do nosso país”.

Recorde-se que o conflito brácaro-vimaranense se inicia em 1885, quando os procuradores vimaranenses à Junta Geral do Distrito de Braga, entre os quais se incluía o Conde de Margaride, foram insultados e apedrejados à entrada da cidade dos arcebispos, pelo simples facto de contestarem as pretensões bracarenses de financiamento de um curso complementar de ciências, sob a argumentação que à cidade de Guimarães apenas e só se pediam contribuições, sem nada receber em troca.
Todavia, esta querela levaria a estribar (o)posições, de tal forma que o Conde de Margaride recusar-se-ia a voltar a pôr os pés em Braga e, por isso, quando o rei se deslocava àquela cidade, ia cumprimentar a comitiva real em território neutro: a estação ferroviária da Trofa.
Certo é que com este conflito a cidade de Guimarães gozaria de um período de autonomia administrativa, uma vez que a proposta de João Franco, deputado por Guimarães, no sentido da desanexação do concelho de Guimarães do distrito de Braga e a sua integração no distrito do Porto não avançaria.

Igualmente, o Conde de Margaride, tal como vários outros conterrâneos, está também ligado ao progresso vimaranense, em especial ao chamado ano de ouro de Guimarães, em 1884. De, facto, nesse ano realizou-se a I Exposição Industrial Vimaranense, no Palácio de Vila Flor, e o comboio chegaria à cidade berço, em abril, obra que o conde vinha intransigentemente defendendo. De igual modo, chegaria a escola industrial (atual Francisco de Holanda) e o Liceu de Guimarães, em 1896.
De facto, o conde tinha uma relação privilegiada com a família real, o que de certa forma pode explicar a sua influência política. Recorde-se que a família real ficava habitualmente instalada no seu palácio do Carmo. Tal sucedeu em 1872, quando o rei D. Luís I esteve em sua casa, acompanhado pelo Ministro da Fazenda e do poderoso Fontes Pereira de Melo, Ministro das Obras Públicas do reino; e repetir-se-ia em 1877, quando o rei esteve em Guimarães para inaugurar a estátua de D. Afonso Henriques. Mais tarde, o rei D. Carlos hospedar-se-ia por três vezes no palácio do Conde de Margaride (1901, 1906 e 1907) e o rei D. Manuel II faria também honras da casa, em 1909.
Aliás seriam famosas as festas e bailes do seu palacete, que não escapariam à pena satírica de Camilo Castelo Branco em “Noites de Insónia”, nem “Às Farpas” de Ramalho Ortigão.

No entanto, o Conde de Margaride foi também um homem instruído e de cultura. Com efeito, cursou Filosofia, em Coimbra e seria um emérito latinista, tradutor de Victor Hugo, bem como um colaborador assíduo da imprensa da época, em especial na Revista de Guimarães.
Marcante seria também sua ação no âmbito da assistência social. Realmente, o conde seria Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães em 1880-1881e ainda da Real Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos. Ademais, as suas ações de benemerência seriam ainda extensivas ao seu testamento, no qual se exaravam doações significativas às instituições vimaranenses, entre as quais o Asilo de Santa Estefânia, as Oficinas de S. José e a Ordem Terceira de S. Domingos.

Curiosamente, viveria também como criada de servir, no seu palacete do Carmo, uma senhora de nome Ana Joaquina de Magalhães Aguiar, mais conhecida por Senhora Aninhas, mãe dos estudantes nicolinos. Aqui terá a Senhora Aninhas, ainda jovem e solteira contatado com as festas nicolinas, uma vez que no palacete do conde era costume oferecer-se à estudantada uma posse bem abonada

O Conde de Margaride encontra-se evocado na toponímia vimaranense na avenida com o seu nome, que liga Creixomil à cidade e é de facto uma proeminente figura de dedicação à causa pública e à sua cidade-berço.
 
Texto
de
Álvaro Nunes

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