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21 DE MARÇO -DIA MUNDIAL DA POESIA
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2019/03/2527 leram | 0 comentários | 5 gostam
21 de março é o Dia Mundial da Poesia, uma data proclamada na 30ª. Conferência Geral da UNESCO, em16 de dezembro de 1999, com o objetivo de vincar a importância da reflexão sobre o poder da linguagem e seu vigor criativo.

Ora, em 2019, data do centenário do nascimento de Sophia de Melo Breyner Andresen, o Dia Mundial da Poesia só poderia ter um nome: Sophia
Com efeito, Sophia ocupa no panteão da lírica portuguesa um lugar cimeiro e singular, em cujos poemas perpassa o amor da vida e uma intensa exigência moral, plasmados em símbolos marinhos e palavras denunciadoras da realidade, plenas de sinergia mágica. Igualmente, uma poesia sem dependência de escolas ou grupos literários, que aspira a assumir um compromisso com o mundo do seu tempo, sobrelevando-se como força transformadora.
De facto, a problemática do (seu) tempo e o compromisso com a realidade, no qual a poesia se assume como forma de luta contra a injustiça, a mentira e a corrupção, é um dos vetores essenciais da sua obra, que, centrada na sensibilidade ao sofrimento do mundo e na denúncia da opressão e da degeneração, visa provocar a incomodidade interior e o nosso empenhamento.
Estão neste caso, entre muitos outros, o poema “Data”:
(…)
“Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão”
(…)

Ou, ainda, “Guerra ou Lisboa 72”, poema de denúncia da guerra colonial:

“Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com a morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena”.

Efetivamente, a podridão e a degradação pessoal e social são frequentemente denunciadas por Sophia. O poema “As Pessoas Sensíveis”, recheado de citações e alusões bíblicas é um exemplo ilustrativo dessa crítica deliberada à hipocrisia e duplicidade das pessoas e a prova cabal dessa postura denunciatória:

“As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém, são capazes
De comer galinhas”
(…)



“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.
(…)
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem”

Há portanto na sua poesia um apelo e incentivo à luta sem violência, que passa pela frontalidade e coragem do ser e pela integridade moral, que o poema “Porque” bem dilucida:

“Porque os outros se mascaram, mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo, mas tu não.

Porque os outros são túmulos caiados
Onde germina a podridão.
Porque os outros se calam, mas tu não”
(…)

Quebrar corajosamente o silêncio contra a podridão e derrotar os abutres, simbolicamente associados à degradação e ao menosprezo, é por conseguinte a missão desta sua poesia:

“O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas”

Missão que Sophia acabaria por vivenciar e rejubilar, como bem expressa o seu poema “25 de Abril”, após a queda do bando do “Velho Abutre”, que se crê retratar Salazar:

“Esta é madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”.

Um novo tempo para o qual, Sophia avisaria preventivamente será necessário manter a vigilância e o sentido crítico: “Nesta hora limpa de verdade é preciso dizer a verdade toda/Mesmo aquela que é impopular neste dia em que invoco o povo/Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio/E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade”.
 Por isso, alerta e acusa:

“Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras”

No entanto, para além desta vertente interventiva, Sophia espraia se também por outras ondas poéticas e temáticas. Assim, na sua poesia destaca-se também a presença misteriosa e obsessiva do mar:

 “Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto ao mar” – escreve Sophia no seu poema “Inscrição”

O mar da sua praia da Granja, local onde passaria as férias de infância e adolescência e mais tarde, o mar do reino dos Algarves, na sua vida adulta, surge assim na sua poesia como símbolo da dinâmica da vida, donde tudo vem e regressa, como lugar de vida e morte. De facto, o mar, a praia, a casa, os jardins são suportes da demanda da perfeição, pureza e harmonia:

“Ao longe por mim oiço chamando/A voz das coisas que eu sei amar/E de novo caminho para o mar”.

Evidente, portanto, na poesia de Sophia o tratamento poético da natureza, geralmente em oposição à cidade, enquanto falso paraíso artificial conspurcado. Uma natureza plena de autenticidade, conotada com os elementos primordiais, com a qual o sujeito poético se deseja fundir:

“De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua”.

 Mas também o oceano e as viagens marítimas rumo ao Oriente, que em Sophia, mais do que um espaço físico, funciona como símbolo de ordem, pureza, originalidade e da magia primitivas:

“Navegavam sem o mapa que faziam
(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula bússola tateava espaços
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares, frescor ardente
E o brilho do visível, frente e frente”

Um poema que é também de exaltação da vigem dos descobridores que intertextualmente se aproxima da epopeia camoniana, contrapondo o saber livresco dos “homens sábios” ao “saber da experiência feito”, em clara rutura com a tradição vigente.

Sophia é também na sua obra lírica um mar de poesia, simultaneamente revolto e sereno.

Texto
de
Álvaro Nunes

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