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OS ESPAÇOS SAGRADOS DE SOPHIA
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2019/01/3055 leram | 0 comentários | 7 gostam
O palacete vermelho conhecido como a Casa Andresen e a “casa branca em frente ao mar enorme”, na praia da Granja, seriam os dois espaços sagrados da vida infanto-juvenil de Sophia, que marcariam muitas das suas obras.
De facto, nesse espaço portuense da antiga Quinta do Campo Alegre, a autora brincou e passou parte da sua infância e adolescência, muitas vezes em companhia do seu primo e escritor Ruben A.; uma propriedade do avô de ambos, que em 1951 seria parcialmente expropriada para construir os acessos à Ponte da Arrábida e que atualmente alberga a citada Casa Andresen, na qual se instala a Galeria da Biodiversidade, bem como o Jardim Botânico do Porto.

Efetivamente, as casas e as personagens familiares povoam as histórias de Sofia. É o caso específico do conto “A Saga”, inserido na obra “Histórias da Terra e do Mar” (1984).
Conta Sophia, numa entrevista concedida ao Jornal de Letras, Artes e Ideias de 5 de fevereiro de 1985:

“A “Saga” nasceu, na realidade, de uma história de família: o meu bisavô veio realmente de uma ilha da Dinamarca, embarcado à aventura e foi assim que acabou por chegar ao Porto. O episódio da zanga com o capitão, o do número de circo com a pele de urso no cais, o abandono do navio – tudo isso aconteceu de facto. Também são verdadeiras as palavras que ele disse, mais tarde, a uma das netas: “o mar é o caminho para a minha casa” – e outras coisas ainda”.

Coisas que ficaram por dizer, mas provavelmente ficcionadas na narrativa a partir das memórias da infância, vivenciadas nesta quinta:

“No fundo da quinta, para os lados da barra, Hans mandou construir uma torre. Segundo disse para ver a entrada e saída dos seus barcos (…).
- Avô, disse Joana – porque é que estás sempre a olhar para o mar?
-Ah, – respondeu Hans – porque o mar é o caminho para a minha casa”.

Com efeito e embora não tenha conhecido diretamente o seu bisavô, a sua figura seria uma presença tutelar no seu mundo infantil e posteriormente no seu imaginário literário, assim como outros seus familiares, com especial relevância os seus cinco filhos:

“Comecei a inventar histórias para crianças quando os meus filhos tiveram sarampo” – lê-se num depoimento publicado em 1986. “Mandei comprar alguns livros que tentei ler em voz alta. Mas não suportei a pieguice da linguagem nem a sentimentalidade da mensagem: uma criança é uma criança, não é um pateta. Atirei os livros fora e resolvi inventar. Procurei a memória daquilo que tinha fascinado a minha própria infância (…)
Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância “

 Há de facto nas obras de Sophia lampejos claros das casas e espaços de infância, em especial dos jardins. Por exemplo, no conto “O Rapaz de Bronze” (1966), a personagem é claramente ficcionada a partir da estátua (ainda hoje) existente:

“Num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena onde cresciam fetos e no centro estava uma estátua que era um rapaz de bronze”.

 Por sua vez, n’ “A Noite de Natal” (1959) pressente-se claramente a descrição dos espaços ajardinados da casa do avô:

“- O teu jardim é muito bonito.
- É, vem ver.
Joana desceu o muro e foi abrir o portão.
E foram os dois pelo jardim fora (…). Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras, e a horta (…). E mostrou-lhe todas as árvores, e as relvas e as flores.
- É lindo, é lindo – dizia o rapazinho gravemente.
- Aqui – disse Joana é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se à sombra redonda do cedro”.

Uma visita à Casa Andresen e ao Jardim Botânico do Porto, conciliando literatura com ciência (biologia e história natural) e as artes, impõe-se portanto como uma exigência. De facto, da ficção à realidade, a Casa Andresen alberga o primeiro polo do Museu de História Natural e Ciência da Universidade do Porto, constituindo o primeiro centro de ciência viva que se dedica especificamente à biodiversidade e que não esquece Sophia. Realmente, na Galeria da Biodiversidade não falta sequer um impressionante esqueleto de baleia suspenso no teto, que aludido no conto “A Saga” concretiza o desejo de Sophia:
  
“Tudo na casa era desmedidamente grande desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as salas as salas e no qual, como Hans dizia se poderia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado, em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências, por não haver lugar onde coubesse armado”.

Todavia, são essencialmente os jardins da antiga quinta os espaços de ação da infância e adolescência de Sophia e alguns dos seus locais sagrados e cenários dos contos como “A Floresta” (1968) e “A Noite de Natal”:

“No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões”.
 
Ademais, aqui também se mantêm o banco de azulejos descrito por Sophia, ou a glicínia e o buxo, que entram em muitas das suas obras.
Atualmente, além de dois lagos, um dos quais com nenúfares, existem estufas de plantas xerófilas com diversos catos, plantas tropicais e orquídeas, que coabitam com árvores centenárias e variadas espécies raras e exóticas e ainda um jardim de plantas suculentas. O espaço compreende também um jardim histórico composto por três partes distintas: roseiral, Jardim dos Jotas e o Jardim do Peixe, separados por camélias.

A (re)ler Sophia e visitar os seus espaços sagrados …

Texto
de
Álvaro Nunes

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