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ENTRE ABEL SALAZAR E DA VINCI
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2019/01/2355 leram | 0 comentários | 11 gostam
Neste ano de 2019 passam 500 anos da morte de Leonardo Da Vinci, considerado uma das figuras mais marcantes do Renascimento europeu e da cultura universal. E perpassam também 130 anos do nascimento do Da Vinci vimaranense: Abel Salazar.
Ora, o Renascimento foi de facto um período histórico europeu, dos séculos XV e XVI, que revalorizou as principais referências da Antiguidade Clássica e os valores dos antepassados gregos e romanos, mas acima de tudo foi um período de grandes transformações, que colocaria o ser humano no centro da criação. Iniciado nas cidades de Florença e Siena e que mais tarde se difundiria por toda à Europa, graças ao desenvolvimento da imprensa e à circulação de artistas e obras, o Renascimento foi efetivamente um movimento histórico e cultural que entre nós deixaria um legado incomensurável e indelével. Em Portugal, por exemplo, deixar-nos-ia nomes e obras como “Os Lusíadas” de Luís de Camões, o matemático e inventor do nónio Pedro Nunes, o médico Garcia de Orta, ou o historiador e gramático João de Barros, entre muitos outros, que são fruto dessa nova cosmovisão humanista, aos quais poderíamos acrescentar o desenhador e pintor Francisco de Holanda, que denomina uma escola secundária em Guimarães, da qual é patrono, bem como um grupo desportivo vimaranense.

LEONARDO DA VINCI

Mas, afinal, quem foi Leonardo Da Vinci?
 Pois, Leonardo da Vinci (1452-1519) foi quase tudo! Uma espécie de homem dos 7 ofícios que se distinguiu como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, (e já vão 7!) e ainda como arquiteto, botânico, poeta, músico e sabe-se lá que mais! Um homem genial, à frente do seu tempo, que terá antecipado visionariamente criações como o helicóptero, os tanques de guerra e que nos deixaria ainda pinturas famosas como “Mona Lisa”, “A Última Ceia” , “ Batismo de Cristo” “Anunciação” e “Adoração dos Magos”, entre outras. Mas, igualmente célebre pelos seus desenhos como o “Homem Vitruniano”, que nos faculta a dimensão humana e especialmente o ”Códice Leicester” um manuscrito de 72 páginas de reflexões científicas sobre a água, que Bill Gates comprou em 1994 pela fabulosa quantia de 27,1 milhões de euros!
Curiosamente, um códice que, tal como os outros escritos de Leonardo, está redigido da direita para a esquerda de maneira que só seja possível lê-lo usando um espelho. Trata-se de um notável documento científico que não só nos fala dos fósseis com provas de vida pré-histórica, ou em instrumentos para criar diques e barragens nos rios, mas também em lentes para ver a Lua Maior, antecipando a criação do telescópio um século antes da sua existência.
Nascido em Anchiano, na altura sita na república de Florença (Itália) e falecido em 2 de maio de 1519, este talentoso génio foi de facto um nome central da história da arte e pensamento universal.

ABEL SALAZAR

Mas, neste ano de 2019, faz também 130 anos do nascimento daquele que é considerado o Da Vinci vimaranense: Abel Salazar.
Mas, afinal, quem foi Abel Salazar?
Abel (de Lima) Salazar (1889- 1946) nasceu no Toural, em Guimarães. Médico, cientista e artista plástico, é indubitavelmente um caso singular da cultura portuguesa e uma das personalidades mais prestigiadas do seu tempo.
Com efeito, Abel Salazar foi pelo seu poliformismo um homem do renascimento, que conciliou como poucos a atividade científica e pedagógica com a arte.

Tudo começou na sua cidade-berço, em 1900, com a matrícula no Seminário-Liceu de Guimarães. Porém, este filho de Adolfo Salazar, professor de Francês na Escola Francisco de Holanda (e secretário/bibliotecário da Sociedade Martins Sarmento), cedo seria forçado a mudar para Porto, acompanhando seus pais.
Então, já no Porto, frequenta o Liceu Central e posteriormente ingressa na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, terminando o curso em 1915 com a classificação máxima de 20 valores, com a tese de dissertação intitulada “Ensaio de Psicologia Filosófica”.
No entanto, logo no ano seguinte ganha por concurso a vaga de professor contratado em Histologia, passando dois anos depois à condição de professor ordinário e seguidamente, em 1919, a dirigir o Instituto de Histologia e Embriologia. Aí iniciaria notáveis trabalhos científicos no âmbito dos tecidos celulares, anatomia do cérebro e sobre o ovário, investigações que seriam coroados de êxito, como o célebre método tano-férrico de Salazar, que tornou o seu nome conhecido à escala universal.
Simultaneamente, consagra-se também à escrita e torna-se colaborador do anatomista Prof. Champy, em Paris. Subscreve então vários manifestos contra a ditadura portuguesa, postura de militante democrata que lhe valeria a exoneração pelo homónimo Salazar (António de Oliveira).Todavia, este afastamento compulsivo da universidade leva-o a dedicar-se à arte, revelando a sua (outra) faceta de artista e crítico plástico, para além das anteriores caras de cientista, professor, pedagogo, filósofo e escritor de vários temas e vertentes.
Porém, dada a sua precária saúde, acabaria por falecer vítima de cancro em 1946, após doença prolongada.

Atualmente a sua vida e obra encontra-se evocada e à guarda da Casa-Museu Abel Salazar, em S. Mamede de Infesta, uma instituição de utilidade pública tutelada pela Universidade do Porto, cuja missão consiste em promover a investigação, o estudo e a divulgação da obra científica literária, filosófica e artística de Abel Salazar. Uma produção artística esteticamente marcada pela temática social, que em muitos aspetos o tornam como um precursor do neorrealismo português.
Em Guimarães além da placa evocativa e seu busto, no Toural, sua memória permanece na toponímia da cidade (Alameda Abel Salazar) e como patrono do Agrupamento de Escolas Abel Salazar, em Ronfe.
No Porto, seu nome é recordado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e na toponímia da cidade invicta, urbe que lhe dedica ainda uma estátua, implantada no Jardim do Carregal.
No fundo, o retrato do “ homem que parece feito de pedaços de vários homens, todos notáveis”, a justificar uma visita a sua casa-museu.

Mas, no fundo, dois homens de tempos e espaços diferentes, mas que se cruzam pelo seu ecletismo e humanismo.


Texto
de
Álvaro Nunes

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