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PRENDAS DE NATAL
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2018/12/1998 leram | 0 comentários | 18 gostam
Neste, como qualquer outro Natal, um livro é sempre um excelente presente, seja sobre que tema for. Porém, nesta época natalícia, alguns títulos sobre o Natal são mais que oportunos! Para oferecer, mas fundamentalmente para ler e refletir!
Talvez as “Cartas ao Pai Natal” de J.R. Tolkien, “O Milagre da Rua 34” de Valentine Davies, ou quem sabe, “O Expresso Polar” de Chris Van Allsburg, ou quiçá o título “Como Grinch roubou o Natal” do Dr. Seuss, pseudónimo de Theodor S. Geisel! Plausivelmente, quem sabe, se algumas destas sugestões poderão configurar uma dessas opções de prendas.
Mas, são tantas as propostas (e muitas delas boas) que a escolha de obras de Natal é sempre difícil! Seleção que, pode até passar por um bom policial, em especial para os mais velhos, como por exemplo “O Natal de Poirot” de Agatha Christie; ou pelo clássico de Charles Dickens, “Christmas Carol” (“Um Conto de Natal”), cuja obra comemora este ano 175 natais!
De facto, publicado em 19 de dezembro de 1843, o conto de Dickens (1812-1870), provavelmente um dos contos natalícios de todos os tempos e uma das mais famosas obras do autor, pode ser uma escolha acertada para (re)ler e/ou recordar .

Porém, as nossas escolhas centram-se sobretudo em livros de literatura de língua portuguesa. E, também aqui, a escolha é múltipla!
Talvez Sophia de Mello Breyner Andresen, que em 2019 completa 100 anos do seu nascimento e nos deixou os belos contos “Os rês reis do Oriente” , “A Noite de Natal” e até “o Cavaleiro da Dinamarca”, vivenciado entre dois natais. Quiçá a antologia “As mais belas histórias portuguesas de Natal”, estórias selecionadas por Vasco da Graça Moura, entre os quais se inclui “O Natal dos Pobres” de Raul Brandão, “O Suave Milagre” de Eça de Queirós, “A Missa do Galo” e “D. Quixote contra Herodes” de Aquilino Ribeiro e muitos outros escritores e títulos natalícios.
 
 Mas, podemos também voltar-nos para o Douro e os seus escritores mais emblemáticos.
Por exemplo, para Miguel Torga (1907-1995) com o seu inolvidável conto “Natal”, da obra “Novos Contos da Montanha” (1944) do qual respigamos o desfecho:

“ Enxuto e quente o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se- Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e por descargo de consciência ergueu-se e chegou-se à entrada da capela.
O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. A Senhora faz de quem é, o pequeno a mesma coisa, e eu, embora indigno, faço de S. José”.
 
Ou, em alternativa, João Araújo Correia (1899-1985), que neste (próximo) primeiro de janeiro celebrará 130 anos de nascimento e que além da sua “Noite de Natal”, apresenta-nos e dá-nos a beijar, no seu belo “Conto de Natal” inserido na obra “Contos Bárbaros” (1939), um “Menino de carne e osso”.

Todavia, há ainda Domingos Monteiro (1903-1980), que nos legou como prenda os seus “Contos de Natal” (1964), obra da qual sobressaem “O Regresso”, ou “Um Recado para o céu”, bem como “O Menino Jesus que eu conheci …”.
  
Contudo, a magia do Natal está também presente em muitos outros textos dos nossos prosadores. Recordo, por exemplo, ”O Menino Jesus do Paraíso” ou o “Conto de Natal” de Fialho d’Almeida, inseridos em “O País das Uvas” (1893). Mas também José Régio com o seu “Conto de Natal”, Ferreira de Castro com “O Natal em Ossela”, Vitorino Nemésio com “Os Reis Magos” e até José Saramago com a “História de um muro branco e de uma neve preta”, que conta a história de um estranho desenho natalício de uma menina que nesse Natal perdera a sua mãe.

Assim, acerca do tema, não falta por onde escolher, em variados tons e estilos! Temos também “O Viajante Clandestino” e “Natal Branco” de José Rodrigues Miguéis, ambos inseridos na obra “Gente de Terceira Classe” , “A amarga e esforçada crónica do Natal de 1973” de António Alçada Batista e/ou “A Tua Véspera de Natal” de David Mourão Ferreira. Porém, muitos outros textos seriam possíveis aqui e agora aludir, especialmente em trechos diversos de muitos autores, que quase me atrevo a dizer que o Natal a todos animou a pena! Com efeito, quer Fernando Namora (“Reputação”) quer Manuel da Fonseca (“Noite de Natal”), passando por Tomaz de Figueiredo (“Gente de Paz” e “O Conto de Natal”), até Alexandre O’Neill com os seus “Exercícios de auto-apoucamento (com vista para o próximo Natal), quase ninguém terá ficado imune à temática natalícia.
Que o digam também Jorge de Sena com os contos “Razão de um pai Natal ter barbas brancas” e “A noite que fora de Natal”, ou Alves Redol (“ A Festa de Natal”)! Que o digam ainda Atino Tojal (este ano falecido) com a sua “Festa de Natal”! Ou Urbano Tavares Rodrigues com a sua “Samarra” .
E, claro e obviamente, Manuel António Pina com “O Cavalo de Pau do Menino Jesus e outras histórias”, que inclui três deliciosos contos natalícios do autor (ler o texto Homenagem a Manuel António Pina, publicado em separado).

De facto, poucos escritores “escaparam” ao tema do Natal. Tão-pouco Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, que na sua coleção “Uma Aventura …” , aventuram os seus protagonistas de sempre a viver uma “Aventura nas férias de Natal”, na casa da tia Judite, em Trás-os-Montes.
 
Caros leitores, não faltam propostas e sugestões de leitura, para todos os gostos e idades! Por isso, toca a oferecer livros, a ler (e a refletir) …
Boas leituras e melhor Natal …

Texto
de
Álvaro Nunes

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