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2019 – O ANO DE SOPHIA
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2018/11/2870 leram | 0 comentários | 27 gostam
Em 2019 comemora-se o centenário do nascimento de Sophia, cujas iniciativas evocativas irão ocorrer ao longo do ano.
Os contos “A Noite de Natal” e “O Cavaleiro da Dinamarca” marcam assim, nesta quadra natalícia, o início desta homenagem.
A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de novembro de 1919 e faleceu em 2 de julho de 2004, em Lisboa, cidade onde viveria e frequentaria o curso de Filologia Clássica. Sophia é porém conhecida e justamente reconhecida como uma das mais prestigiadas escritoras da nossa literatura contemporânea, cuja obra se reparte pela poesia, contos, teatro e o ensaio, bem como pela tradução.
Aliás, muitas das suas obras foram também traduzidas em várias línguas e inúmeros seriam os prémios e condecorações recebidos em reconhecimento da sua obra. Destacam-se, entre muitos, o Prémio de Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1994), o Prémio Camões (1999) e o Prémio Rainha Sofia (2003), assim como várias condecorações do estado português e da República Francesa e o doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro (1998).

Porém, Sophia, para além da sua excelente produção literária, manteve-se também e sempre na primeira linha de combate pelas grandes causas políticas e sociais. Deste modo, presidiu à Assembleia Geral de Escritores, colaborou ativamente na campanha eleitoral de Humberto Delgado à presidência (1958), foi candidata pela oposição democrática nas eleições legislativas de 1969 e participou ativamente, antes do 25 de Abril de1974, na Fundação do Comité Nacional de Socorro aos Prisioneiros Políticos. Igualmente, após a Revolução de Abril seria ainda eleita deputada da Assembleia Constituinte (1975/1976) pelo Partido Socialista e Círculo do Porto.
 Assumidamente católica e progressista, ficaria célebre a sua “Cantata da Paz” e o seu refrão:
“Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar!”.

 Ora, os contos infanto-juvenis citados são, no decurso desta quadra natalícia e final do ano de 2018, uma ótima motivação para iniciar e posteriormente prosseguir, em 2019, o ano de Sofia. No fundo, um ótimo ensejo para ver, ouvir e ler o verdadeiro sentido e profundidade da mensagem natalícia, que o consumismo (por vezes) nos faz ignorar.


Com efeito, “A Noite de Natal” oferece-nos “uma imagem renovada do maravilhoso cristão (e o ideal que o inspira), plena de significado social e individual”. Um conto em que, para além da solidão e orfandade afetiva, surge “ a orfandade social de Manuel, como uma reencarnação de Cristo, que no final vem dar sentido aos valores da amizade, da partilha e da busca de uma união entre o humano e o sagrado”.
De facto, há na “Noite de Natal” um sentido cristão profundo de um verdadeiro Natal, que a partir do contraste entre a consoada abundante e alegre da casa de Joana e a pobreza de seu amigo Manuel, sem presentes nem mesa farta, conduz à solidariedade, também aqui guiada por uma estrela, em ambiência mágica e fantástica, ou (quase) surrealista:

“Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza, pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.
E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz, sem nenhuma sombra.
E com as mãos postas os anjos rezavam, ajoelhados no ar.
Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.
- Ah! - disse Joana – aqui é como no presépio!
- Sim – disse o rei Baltasar - aqui é como no presépio.
Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes”.

Um livro que pode ser um belo presente natalício e uma leitura recomendada, que certamente será uma oportuna reflexão sobre o verdadeiro sentido do Natal e o significado do presépio, semelhante àquele que desde 1224 S. Francisco de Assis construiu e nos legou, após a sua emocionante visita a Belém.

Mas o Natal é também o ponto de partida e chegada da viagem iniciática e probatória da narrativa “O Cavaleiro da Dinamarca”, um dos mais famosos contos de Sophia. Uma viagem de dois anos, através do qual o cavaleiro, como o homem novo renascentista, procura em Belém a perfeição e a passagem de cavaleiro terrestre a cavaleiro celestial, numa busca de si mesmo e da verdade, visando a transformação e ascensão ao divino:

“Até que certo Natal aconteceu naquela casa uma coisa que ninguém esperava. Pois terminada a ceia o Cavaleiro voltou-se para a sua família, para os seus amigos e para os seus criados, e disse:
 (…)
- Vou partir. Vou em peregrinação à Terra Santa e quero passar o próximo Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos (…) De hoje a um ano estarei em Belém. Mas passado o Natal regressarei aqui e, de hoje a dois anos estaremos, se Deus quiser, reunidos de novo”.

E assim seria, dois anos depois, após uma longa viagem de regresso cheia de novos conhecimentos, peripécias e tentações, desde Veneza a Florença, Génova a Antuérpia, até à etapa final e perigosa da chegada a casa, já perdido e cansado, na noite de Natal, tal como prometera:

“Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes. Porque os anjos de Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.
Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros”.

O espaço inicial e paradisíaco de sua casa transforma-se assim em espaço de revelação e luz, superando as dificuldades, os perigos e a escuridão.

Que estas leituras te tragam a luz perante a vida e as suas provações …


Texto
de
Álvaro Nunes

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