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Homenagem a Manuel António Pina
Por Carla Manuela Mendes (Professora), em 2018/11/14125 leram | 0 comentários | 26 gostam
Manuel António Pina diz-te alguma coisa?! “O Têpluquê e outras histórias”, está entre as tuas leituras?
Certamente já não te recordas, mas esta narrativa do menino que trocava o tê pelo quê e do escaravelho Bocage contador de histórias, bem como da revolução das letras contra a ordem alfabética ( contra o “status quo” ou poder estabelecido, dirão os adultos) é bem provável que a tenhas lido no 2º. ano. Recordas-te agora? Há até uma edição com ilustrações do nosso José de Guimarães!
Bem, mas aqui vai um “bocadinho” dessa “revoluçãozinha”:

“Até que um dia, o dono do alfabeto, que era quem escrevia com ele, reuniu os seus gramáticos e disse:
- Façam qualquer coisa, senão as letras revoltam-se. Ainda fazem alguma cooperativa e começam a escrever sozinhas!” (…)

Já te recordas?!
Bem, mas a revolução que aconteceria de facto foi outra e ocorreu em 25 de Abril de 1974! Aliás, sabes bem da História (esta com um “agá” grande) que assim foi!
De tal forma que o nosso Manuel António Pina (MAP) também escreveria uma história sobre estas páginas da História. Intitulou-se “O Tesouro” (1983) e foi escrita a pedido da Associação 25 de Abril.
Será que a leste no 3º. ano, como era costume?!
 Sim, aquela história da História do “país que agora já não se chama País das Pessoas Tristes” , pois conquistou o tesouro da liberdade … Um tesouro que não se pode esbanjar …

Pois vem tudo isto a propósito do escritor e poeta Manuel António Pina (1943-2012), que neste novembro de 2018 faria 75 anos, se ainda fosse vivo fisicamente. Porém, cremos que ele é certamente um daqueles “ que por obras valorosas/se vão da lei da morte libertando” , e por isso, não está esquecido, vivendo imortalizado espiritualmente, entre nós, em especial através da divertida e imaginativa obra legada. Uma obra muito premiada, inclusive com o Prémio Camões (2011), o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, atribuído pela “inventividade e originalidade” da sua produção poética e literatura infanto-juvenil, traduzida em várias línguas.
Inventividade e originalidade que está também presente em “O Inventão”, que reúne vários textos escritos para a RTP, que foi apresentada no programa intitulado “Histórias com pés e cabeça”, ou n’ “A história do Capuchinho Vermelho contada às crianças e nem por isso por Manuel António Pina segundo desenhos de Paula Rego” …
  
No entanto, estou certo que quer tu, quer alguém da tua família e amigos, também já ouviram falar da obra “Pequeno livro de desmatemática”, que está recomendada para o 6º, ano de escolaridade. Mas, neste caso, uma matemática divertida de fazer roer de inveja os grandes matemáticos.
Porém, este livro de MAP, mais que contas conta outras coisas e loisas! Jogos com palavras e brincadeiras com elas, por exemplo, pois como diz o escritor “brincar é coisa muito séria”. Por isso, “aqui, as personagens da matemática, os números, os sinais, as contas são tratadas como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu”.
Mas, sempre com problemas resolúveis com o poder da imaginação, mesmo em casos de difíceis divisões:
 
“A divisão é a arte
De ficar com a melhor parte
Se duvidas não dividas!
Ou divide só as dívidas!”

Todavia, se preferes o teatro a estas operações desmatemáticas, o escritor pode também oferecer-te muitas outras opções de leitura e representação. Por exemplo, em sua homenagem encontra-se agora em reposição a peça “O beco dos Gambozinos”, com música de Susana Ralha. Mas, provavelmente, já também leste ou irás ler “Os Piratas” no teu 6º. ano, adaptação teatral da novela homónima, que dramatiza a estória vivida por uma rapaz de 9 anos, de nome Manuel, envolvido na tragédia de um naufrágio e num ataque pirata. Ou também a peça “O Adamastor”, leitura recomendada no 8º. ano, que conta a história fantástica e terrível vivida pelo físico e cirurgião Mestre João, no Cabo da Boa Esperança, a bordo da frota de Pedro Álvares Cabral.

Bem, mas também podes escolher a poesia! Então, entre inúmeros títulos, sugeríamos “Todas as Palavras – Poesia Reunida” (9º. ano) ou “O Pássaro da Cabeça”(5º. ano), do qual transcrevemos esta pequena passagem, para te adoçar o bico:
“Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça.
(…)
 Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada.
(…)

Poesia que porém, num plano mais elevado, assume geralmente marcas de inquietação e questionamento: “o braço que falta ao mendigo é o que o sustenta”- escreve MAP num dos seus versos.

Bem, mas MAP, um beirão nascido no Sabugal e residente no Porto, não foi porém e apenas um escritor e poeta distinto. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi também um ilustre jornalista do JN e excelente cronista, crónicas que seriam reunidas na antologia intitulada “Por outras palavras” .
Por outras palavras, mas sempre com elas, MAP foi também, como quase todos os autores portugueses, um excelente contista natalício. Por conseguinte, como estamos às portas do Natal, sugerimos-te ainda a leitura de “O Cavalinho de pau do Menino Jesus” no qual o Pai Natal e o Menino Jesus convivem entre si, ou os contos natalícios “O Sorriso” (ainda com o Menino Jesus na barriga da mãe) e/ou a bem-humorada narrativa “Mais depressa, Reis Magos, mais depressa”, que apesar da pressa, acabariam por chegar atrasados à adoração, acompanhados pelas Rainhas Magas, merecendo por isso um ralhete:
“Nossa Senhora fitou-os com severidade: já estamos a 6 de janeiro, viestes muito atrasados. Temos estado à vossa espera desde o Dia de Natal, pois estava escrito que viríeis nesse dia. Por pouco já não teríamos tempo de fugir para o Egipto”.
(Re)ler Manuel António Pina, na poesia, crónicas, contos (e não só contos infanto-juvenis) será certamente a melhor homenagem que podes prestar ao autor, quer sejam estas ou outras escolhas de leitura.
Vais ver que vais gostar …

Texto de
Álvaro Nunes

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