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ESCAPADELA LITERÁRIA 2018
Por António Lourenço (Professor), em 2018/05/1490 leram | 0 comentários | 12 gostam
Como habitualmente e a propósito do Dia do Autor Português, comemorado em 22 de maio, desde 1982, data que assinala o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores, o Agrupamento de Escolas Gil Vicente vai uma vez mais meter pés a caminho e escapar.
Com efeito, tendo como referência e pretexto o escritor Guerra Junqueiro, amigo íntimo de Raul Brandão, o corpo docente e para-docente do agrupamento vai escapulir-se até ao Porto no próximo dia 19 de maio (sábado), conciliando literatura com convívio, História com arte, sabores com saberes e o mais que vier …
Do programa, consta, logo de manhã uma visita ao Paço Episcopal do Porto, recentemente aberto ao público.
Assim, para além da fruição panorâmica sobre a cidade e o Douro e passeio pelo seu jardim, o edifício do paço, em estilo barroco, com visíveis influências de Nicolau Nasoni patentes no alçado da frontaria, oferece-nos ainda, interiormente, amplos e belos salões, recheados com um importante acervo de peças de mobiliário e outras artes decorativas. Destacam-se nos espaços interiores a escadaria barroca e neoclássica, com dois lanços de acesso ao piso superior e aos diversos aposentos, entre os quais sobressaem a Sala dos Espelhos, a Sala de Acolhimento, a Sala de Audiências e a Sala Vermelha ou do Trono.
Trata-se de um edifício que remontará ao século XII e que ao longo dos tempos terá sofrido várias alterações e presenciado vários eventos históricos. Saliente-se, entre outros, a sua ação durante o Cerco do Porto (1832) na defesa da cidade, uma vez que localmente ficou instalada uma bateria de artilharia. Aqui terá também funcionado o Paço do Concelho (1916 a 1956), antes da sua transferência para a atual localização.
Do Paço à Sé Catedral é só um saltinho! Aqui, nesta bela igreja de origem românica, que data dos séculos XII/XIII, posteriormente acrescentada de edificações góticas (como a capela funerária de João Gordo e o claustro), e que mais tarde seria ainda alterada por influências barrocas a cargo de Nicolau Nasoni, casou D. João I com Filipa de Lencastre (1387). De facto, conciliando História com arte, a Sé Catedral possui ainda um belo espólio de pinturas murais, azulejos e três órgãos, sobressaindo ainda a imagem de Nossa Senhora de Vandoma, padroeira da cidade e a capela-mor com altar em prata, que os “tripeiros” conseguiram esconder por detrás de uma parede de gesso, durante as invasões francesas (1807-1811).
   
Como pontos fulcrais da escapadela, a Casa-Museu Guerra Junqueiro marca porém o cerne e móbil da iniciativa.
Deste modo, no palacete onde se instala a casa-museu, edifício setecentista de estilo barroco atribuído a Nicolau Nasoni (sempre omnipresente na cidade) e recentemente remodelado pelo arquiteto Alcino Soutinho, uma panóplia de objetos das coleções pessoais do poeta e escritor poderão ser apreciados, quer de arte sacra, ourivesaria, vidros e cristais quer tapeçarias, arte do metal e cerâmica, salientando-se neste âmbito as faianças de Viana do Castelo e os pratos de Nuremberga.
Por sua vez, no edifício defronte, no qual funciona complementarmente o Museu da Fundação, além de várias outras coleções artísticas, com destaque para a pintura renascentista e louça Ming, situa-se também o escritório e a biblioteca de Guerra Junqueiro que permitirão uma mais íntima aproximação ao autor.
No fundo, igualmente, uma oportunidade para recordar também Raul Brandão, cuja amizade por Junqueiro ficara bem evidente na correspondência trocada entre ambos, reforçadas na carta-prefácio que Junqueiro escreveu sobre o livro brandoniano “Os Pobres” (1906) e que já anteriormente Raúl Brandão cimentara com a dedicatória da sua obra “A Farsa (1903), “ao Grande Poeta Guerra Junqueiro”.
Guerra Junqueiro é aliás um dos nomes que Raul Brandão mais recorda em muitas páginas das suas Memórias, como o ilustra esta passagem do volume II (1925), intitulada “Os últimos dias de Guerra Junqueiro”:

“Tenho conhecido em toda a minha vida dois ou três santos e alguns homens superiores. Nunca vi mágico de força de Junqueiro. Homem extraordinário! Engenheiro extraordinário! Às vezes Deus fala pela sua boca; outras – quando menos se espera – é o Diabo fosforescente e sarcástico”.

Após a alimentação do espírito, uma pausa para alimentação do corpo, no Mercado Ferreira Borges. Trata-se de um edifício datado de 1885, construído no âmbito da arquitetura do ferro oitocentista, local reabilitado que funciona agora como espaço multifuncional de cultura, lazer e serviços, designadamente cafetaria e restauração, onde outras iguarias pode degustar a famosa francesinha (à campeão). Carago!
A fechar a visita, de tarde, uma deslocação ao Museu Romântico, na Quinta da Macieirinha. Uma bela casa de campo de finais do século XVIII, que recria o ambiente abastado da época romântica e oitocentista, local onde o rei da Sardenha e príncipe do Piemonte Carlos Alberto de Saboia passou os seus últimos dias de exílio e doença, até à sua morte, vitimado pela tuberculose.
Quanto ao poeta e escritor Guerra Junqueiro (1850-1923), nascido em Freixo de Espada à Cinta e licenciado em Direito em Coimbra, é indubitavelmente um dos mais vivos representantes do romantismo social panfletário português, de cariz anticlerical. Com efeito, “A Velhice do Padre Eterno” (1885) colige um conjunto de poemas de pendor satírico e anticlerical, que provocou acerbas réplicas por parte do clero da época.
Mas, Junqueiro seria ainda jornalista e corresponsável pelo jornal literário “A Folha”. Contudo, dedicar-se-ia sobretudo à carreira administrativa e política, tendo sido eleito deputado quer pelo partido progressista durante a monarquia, quer posteriormente pelos republicanos, tendo ainda exercido o cargo de embaixador português na Suíça entre 1911 e 1914.
Entre as suas obras ressaltam ainda o opúsculo “Finis Patriae”, em reação ao Ultimato Inglês (1890), “A Pátria” (1894), uma visão do momento histórico português de inspiração saudosista e patriotismo elegíaco; e “Os Simples” (1892), um hino à terra e uma sentida evocação da infância, obra da qual transcrevemos a estrofe inicial do conhecido poema “A Moleirinha:

“Pela estrada plana, toque, toque, toque
Guia uma jumentinha uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque
Antes que anoiteça, toque, toque, toque
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!…”

Recordam-se? Obviamente, mais uma Escapadela Literária para fruir e relembrar!

Texto escrito por
Álvaro Nunes

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