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DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
Por António Lourenço (Professor), em 2018/05/0374 leram | 0 comentários | 13 gostam
“A minha pátria é a língua portuguesa” (Bernardo Soares/ Fernando Pessoa)
5 de maio, é o Dia da Língua Portuguesa, criado em Conselho de Ministros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa a 20 de julho de 2009, em Cabo Verde e comemorado anualmente entre os países lusófonos.

Com efeito, a língua portuguesa é uma das mais importantes do mundo, provavelmente a quinta ou sexta mais falada mundialmente, cujos utilizadores se estimam em cerca de 244 milhões de falantes. Por isso, com tanta gente a dar à língua, é normal que ande nas línguas do mundo! Ainda por cima, dizem as más-línguas, quando tem fama de ser uma língua brejeira e namoradeira, como nos conta o escritor angolano Eduardo Agualusa: “ a minha língua é uma mulata feliz, fértil e generosa, que namorou o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo, ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas”.
Curiosamente, uma língua que “foi ao mesmo tempo, embora em espaços diferentes, língua de emigrantes e língua de colonizador”, ora acompanhando a diáspora ora o colonialismo. Porém, como disse Amílcar Cabral, um dos obreiros da independência das ex-colónias portuguesas: “uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram”.
 
Todavia, não obstante “beijos” mais recentes, a língua portuguesa, tem marcas de muitos outros lábios de encontros e desencontros proto-históricos, bem de antanho. Memórias dos fenícios, gregos e hebreus, dos povos pré-latinos como os celtas e iberos, ou mesmo recordações das línguas bárbaras dos suevos e visigodos, substratos importantes aos quais mais tarde, entre os séculos VIII e XII, se acrescentaria o árabe.
Todavia, sua marca indelével e matriz genética é o latim vulgar, trazido pelas invasões romanas e que constitui o seu adstrato essencial. Uma língua cuja ovogénese e berço mais remoto recua ao chamado grupo linguístico indo-europeu, cuja ramificação teria dado 12 grupos de idiomas diferenciados, um dos quais o itálico, precursor do latim.
No entanto, o português terá pouco mais de 800 anos! Consta que a sua certidão de nascimento é o chamado “Testamento de D. Afonso II” , datado de 27 de junho de 1214, que terá sido o primeiro documento escrito na nossa língua. Obviamente, um português falado e escrito de maneira diferente, mas as línguas são assim mesmo, como as pessoas, têm a sua infância, (pré)adolescência e vida adulta. E se bem que não parem de se transformar sincronicamente e/ou diacronicamente, acompanham-nos no devir, sofrendo como as efémeras criaturas que nós somos, as angústias e os constrangimentos dos tempos, podendo até morrer! Por isso, há línguas mortas ainda que imortalizadas, como o latim e outras completamente extintas como os dinossauros. Porém, felizmente, a língua portuguesa continua bem viva e recomenda-se. Com efeito, graças à ação dos nossos antepassados, a língua portuguesa continua a ser “o lugar donde se vê o Mundo, em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir” – como diz o escritor Vergílio Ferreira.
De facto, após a separação do galaico-português e em especial graças à ação do rei D. Dinis, que ordenou que todos os documentos oficiais fossem escritos em português, a nossa língua cresceu com os poetas, os cronistas e os dramaturgos, entre ao quais Fernão Lopes e Gil Vicente e solidificou-se com Camões, entre outros. Realmente, após o século XVI com o Renascimento e a difusão do livro, devido à invenção da imprensa, a língua estrutura-se e sistematiza-se, surgindo as primeiras gramáticas como a de Fernão Oliveira (1536) e de João de Barros (1539), bem como as cartilhas e os primeiros dicionários, pois como diria António José Barreiros, uma língua que é só falada anda à rédea solta!
No entanto, neste período e particularmente após os Descobrimentos, são também importantes os cruzamentos com as línguas nativas, quer africanas e asiáticas quer americanas, em especial no âmbito do enriquecimento vocabular; assim como, um pouco mais tarde, seriam relevantes algumas aportações estrangeiras, como os anglicanismos e galicismos, estrangeirismos por vezes decorrentes do surgimento de novas realidades tecnológicas, científicas e sociais. Palavras novas que se integram na língua e que continuamente testemunham o dinamismo do idioma. Mas também termos e neologismos de ordem literária que remetem para a expressividade e a criatividade linguística, evidentes nas obras de Eça de Queirós (lambisgonhice, pensabundo), Alexandre O’Neill (mosquitomania, olhos pestanítidos) ou Mia Couto ( porradarias, arrumário), entre outros. Neologismos que podem também ter origem popular (pinoca, rambóia) e/ou que tendem, segundo Ernesto Guerra “ a suscitar o cómico ou o pitoresco expressivo, que revitalizam formas gastas de dizer ou servem de veículo a matizes de perceção difíceis de traduzir nos termos existentes”.
Com efeito, graças aos falantes e gentes da pena, como jornalistas, poetas e escritores, que atualizam e reinventam a língua, a palavra tem acompanhado o homem na sua peregrinação através da vida. “Da minha língua vê-se o mar”, diria Vergílio Ferreira sobre o português, lavrador e marinheiro, cuja língua expressa novos ritmos como o samba das ondas, os novos sabores agridoces de outros continentes e os cheiros de canela e maresia …
No fundo, uma língua que apesar da sua unidade se abre à diversidade, quer nas suas variações diatópicas (diferenças no espaço geográfico), como os dialetos do português africano ou do Brasil, quer nas suas variações diastráticas (diferenças entre camadas socioculturais), ou ainda nas suas variações diafásicas (diferenças entre os tipos de modalidade expressivas).
 Variações que se sentem também no falar de Guimarães. Com efeito, que diria se o tivesse desinquemodado e desorado com carcávias desta natureza?! Provavelmente ficaria barado, dizendo que são coisas do manquinho! Tão varado, como verificar que, provavelmente, os dicionários não registam (ainda) palavras fundamentais como nicolino, gualteriano ou (pasme-se), vitoriano!

Esperando não ter de dobrar a língua, diremos, sem papas na língua, que é preciso ter cuidado com ela e dar-lhe uso devido, pois é pela língua que o ser se conhece e ela é a morada do ser.
Vamos celebrar a língua?!
Mas, uf, calma! Já estou com a língua de fora! …
 
Texto escrito por
Álvaro Nunes

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