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MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758: POLVOREIRA
Por António Lourenço (Professor), em 2018/03/2374 leram | 0 comentários | 18 gostam
Após Urgezes, segue-se agora Polvoreira, ficando apenas a faltar Nespereira, no âmbito do território educativo.
Assim, tal como anteriormente, transcrevemos com a devida vénia do blogue “Memórias de Araduca” de A. Amaro das Neves, as Memórias Paroquais de 1758 de Polvoreira.

De onde lhe venha um nome tão inusitado na toponímia portuguesa não faço ideia, mas tendo a acreditar que tenha algo a ver com pó (pulvis, pulveris, em latim). No entanto, há quem coloque uma hipótese curiosa, relacionando-o com a batalha de Polvoraria, em que os cristãos destroçaram os muçulmanos (pondo-os em polvorosa), travada no ano de 878, de que fala Alexandre Herculano, que a situa junto ao rio Orbigo, nas imediações da cidade espanhola de Benavente. Nas atas de um congresso de arabistas realizado em Amesterdão em 1978, lemos:

Também existe a sul da cidade de Guimarães mais que um topónimo Polvoreira (Polvoraria —► Polvoreira). Tão curiosa toponímia faz-nos pensar se não existirá alguma relação entre a "batalha de Berberia” referida por Ibn Hayyan e aquele(s) lugar(es); e se a designação toponímica Polvoreira não encerrará em si qualquer nexo com a célebre batalha de Polvoraria que vem referida nos documentos leoneses e se travou nas imediações temporais desta altura em que nos encontramos. Cremos que seja digno de ponderação, tanto mais que nos encontramos no ano anterior àquele em que teve papel importante em Coimbra um homem que naquelas terras de Guimarães era senhor fundiário: o conde Hermenenegildo Mendes.
(Martim Velho, "A localização de Monsalude", Proceedings of the Ninth Congress of the Union Européenne Des Arabisants Et Islamisants: Amsterdam, 1st to 7th September 1978, Brill Archive, 1981, p. 278)

Polvoreira era terra de fabricantes de cestas. É lá que se situa um monumento nacional que está descrito como... inexistente. Foi referido, no século XIX, pelo Pereira Caldas, cujo segundo centenário passa este ano. Foi classificado como monumento nacional em 23 de junho de 1910.
Francisco Martins Sarmento, que o procurou, não encontrou anta nenhuma e deu conta do que encontrou:
“Fica no monte de Lujó. Chamam-lhe a “Furna dos Mouros”. Não vi coisa que se parecesse com “dólmen”. Imagine-se uma Pena Província liliputiana. Os penedos deixam entre si espaços desencontrados, diferentes e estreitos - o que torna, à primeira vista, difícil saber qual deles formava a furna. Mesa, nem sinal dela em parte alguma. Quebrou-se ali já pedra; mas vê-se que a pedra quebrada não alterou no essencial o grupo dos penedos. Por fim, um guia mostrou a “Furna”:
A furna terá doze palmos de profundidade, sete de alto, quatro de largo. Como se viu, não podia ser um dólmen. Era, quando muito, um esconderijo, talvez para cadáveres, facilitado pela deslocação do penedo, deslocação que esmigalhou a pedra que, extraída, deu a furna. Tudo isto foi preparado pela natureza e a única coisa que faz suspeitar que a furna fosse aproveitada para algum uso é o seu nome “Furna dos Mouros” e alguma legenda de dinheiro encantado que por ali há. Realmente não é pouco, porque, sem uma tradição fundada em algum achado esquisito, a coisa em si não podia chamar a atenção. (…) Um lavrador que nos acompanhava diz mais que havia por ali caminho até um ribeiro próximo (anónimo), caminho subterrâneo, entende-se. Estas tradições devem relacionar-se com alguma coisa mais, que caiu em pleno esquecimento. No morro a nascente, por onde passámos antes de chegar à igreja de Polvoreira, encontrei eu um fragmento de tijolo romano, que mostrei aos dois Avelinos, meus companheiros. O lavrador supra, que apareceu depois, disse que num campo dele apareciam a cada passo grandes tijolos e carvão (este homem saiu o irmão do meu falecido criado António, que mora ali). Defronte deste teso, para nascente, há um monte de S. Simão, sem capela. Em Taboadelo, que não fica longe, há, diz o Couto, um sepulcro aberto na rocha.”
Tenho só a acrescentar que a “Furna dos Mouros” podia bem ser lugar de enterramento, porque enterrar os mortos nas “fendas dos rochedos” era comum, diz não me lembra quem.”
De Polvoreira em 1758, também não temos mais do que um breve resumo:
Polvoreira é aldeia e paróquia do termo da vila Guimarães, na comarca do mesmo nome. O seu povo consta de 95 fogos, com 270 almas de sacramento, na matriz dedicada a São Pedro.
O pároco é abade apresentado in solidum pelas freiras de Santa Clara de Vila do Conde e tem de côngrua 450$000 réis.

“Polvoreira”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 42, memória 330, p. 157.

Texto escrito por
Álvaro Nunes

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