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GUIMARÃES NA I GRANDE GUERRA – BATALHA DE LA LYS
Por António Lourenço (Professor), em 2018/03/19163 leram | 0 comentários | 36 gostam
No próximo dia 9 de abril comemora-se o centenário da trágica Batalha de La Lys, travada na região da Flandres, em 1918, na qual participaram tropas do Regimento de Infantaria nº. 20, aquartelado em Guimarães.
Porém, a Batalha de La Lys, na qual lutaram entre 15 mil a 20 mil homens do Corpo Expedicionário Português (CEP), entre os quais militares do Regimento de Infantaria nº. 20, instalado no Paço dos Duques de Bragança, foi um dos maiores desastres militares portugueses depois da Batalha de Alcácer Quibir (1578).
De facto, por causa de vários fatores como a supremacia alemã em armamento e homens, bem como a baixa moral e desânimo das tropas portuguesas, cuja rendição se aguardava e tardara por falta de barcos, aliado ao recuo das posições dos britânicos, que desguarneceram os nossos flancos, a luta acabaria por ser desigual e apesar da resistência e bravura portuguesa, quedar-se-ia por uma pesada derrota.
Uma derrota que abriria um grande “buraco” nesta frente de combate, com cerca de 55 quilómetros de extensão e que cederia perante uma ofensiva que os alemães planearam inteligentemente antes da chegada à Europa das tropas americanas; e que matreiramente lançaram, nas vésperas da rendição dos militares portugueses.

Todavia, apesar da guerra se ter iniciado em 1914 e não obstante as nossas tropas combaterem os alemães desde essa data nas nossas colónias de Angola e Moçambique, só quase dois anos depois, em 9 de março de 1916, é que a Alemanha declarou guerra a Portugal. A causa histórica próxima foi, como se sabe, o apresamento por parte do governo português de vários navios alemães, ancorados nas nossas águas, a pedido dos nossos velhos aliados ingleses. Porém, só no início de 1917, cerca de 200 mil militares portugueses avançariam para o teatro de operações e linha da frente, entre os quais o Regimento de Infantaria nº. 20, de Guimarães.

De facto, Guimarães era a sede do Regimento de Infantaria nº. 20, criada por carta régia de 5 de novembro de 1884. Assim, em maio de 1917, seriam mobilizados e partiriam da cidade berço algumas companhias de infantaria 20, cuja despedida aconteceu na estação de caminho-de-ferro de Guimarães, com destino ao porto de Brest. Assim o descreve O Comércio de Guimarães de 22 de maio:

“(…)A partida destes 1200 homens, na sua quase totalidade tirados à lavoura, ao comércio e à indústria, como era de esperar, encheu de emoção a cidade de D. Afonso Henriques. Durante horas e horas Guimarães parecia mergulhada nas trevas dum grande luto, duma grande dor. Para cima de vinte mil pessoas assistiram à partida (…)”.
  
 Após a chegada, já em território francês, os homens de infantaria 20 seriam integrados na denominada “Brigada Minho” , que agregaria batalhões de infantaria de Viana do Castelo e Braga. Ora, seriam estes homens que resistiriam valentemente até à morte, na linha de defesa do sector de Fauquissart . E, aí, poucos efetivos do Batalhão de Infantaria nº. 20, bem como da “Brigada do Minho”, teriam sobrevivido, apesar da sua coragem. Bravura que seria reconhecida pelos próprios inimigos alemães, que em sua homenagem deixaram inscrições em pedaços de madeira junto às suas campas: “Aqui jaz um valente camarada Português”.
Com efeito, só neste confronto, infantaria 20 terá perdido 21 oficiais e 725 praças, praticamente em dois dias: 8 e 9 de abril de 1918, muitos deles sepultados no cemitério militar português de Richebourg, em França.
    
Efetivamente, “La Lys resultou numa verdadeira tragédia humana para o Batalhão de Infantaria Nº. 20, que num só dia viu o seu número de efetivos reduzido para 300 homens”, lê-se na obra “Estudo de pesquisa sobre a intervenção portuguesa na 1ª. Guerra Mundial (1914-1918) na Flandres” de autoria do major Dorbalino Martins (1995).

Eles que cerca de um mês antes tinham rechaçado os alemães, durante o ataque de 12 de março, que lhes valera um louvor por parte do Quartel General: “que o batalhão de infantaria nº. 20 seja louvado pela disciplina, coragem e bravura com que repeliu o inimigo no violento ataque de 12 do corrente, não permitindo que ele tomasse um só elemento da linha A”.

Reconhecimentos que posteriormente motivariam novas condecorações por parte das chefias militares, em 21 de abril de 1923 e 31 de março de 1926.
Mas também o preito da cidade que se associaria reconhecida. De facto, em 3 de agosto de 1924, durante as Festas Gualterianas um cortejo seguiu do Toural até ao quartel do Paço dos Duques de Bragança, local onde se descerraria uma lápide evocativa, que terá sido removida em 1940, aquando das obras de restauro do palácio.
Atualmente, no cemitério da Atouguia, um monumento aos mortos em combate presta a devida homenagem a esses corajosos soldados que lutaram pela honra da sua terra e gentes.

A paz chegaria por fim a 9 de novembro e a cidade rejubilaria com música da Nova Filarmónica Vimaranense, manifestações nas ruas, casas embandeiradas e repiques de sinos. Porém, com o Tratado de Versalhes “Portugal saiu claramente derrotado de Paris” …

Mas a história do RI 20 não terminaria por aqui. Com efeito, os militares do regimento ter-se-iam recusado a participar no golpe militar 28 de maio de 1926, que pôs fim à I República; e, além disso, terão participado na primeira rebelião contra a ditadura militar, em fevereiro de 1927. Provavelmente terão sido estas situações de recusa à linha ditatorial e afirmação democrática que terão levado o poder político do emergente Estado Novo a decretar a sua extinção.
Porém, em 3 de agosto de 1927, a sua bandeira seria (ainda) condecorada pelos feitos dos seus soldados mobilizados, que combateram nas colónias africanas e na Flandres, a demonstrar o apreço dos vimaranenses pela bravura da sua unidade militar e seu pendor democrático.

Recorde-se que foi também nesta batalha que ficou para sempre perpetuado o heroísmo do lendário e transmontano soldado Milhões, que sendo Milhais de nome, valeu por milhões …

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