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ABEL SALAZAR: O DA VINCI VIMARANENSE
Por António Lourenço (Professor), em 2018/02/26136 leram | 0 comentários | 53 gostam
Abel (de Lima) Salazar (1889- 1946) nasceu no Toural, em Guimarães. Médico, cientista e artista plástico, é indubitavelmente um caso singular da cultura portuguesa e uma das personalidades mais prestigiadas do seu tempo.
Com efeito, Abel Salazar foi pelo seu poliformismo um homem do renascimento, que conciliou como poucos a atividade científica e pedagógica com a arte. Mas, fundamentalmente, um homem que “em todas estas manifestações foi original, rigoroso e experimentalista, pondo em causa os estereótipos e ideias dominantes, com a permanente preocupação de percorrer novos caminhos na interpretação dos factos e na respetiva fundamentação teórica” - lê-se no texto “Abel Salazar e a divulgação do saber” de Nuno Grande e Maria Luísa Fernandes.
Tudo começou na sua cidade-berço, em 1900, com a matrícula no Seminário-Liceu de Guimarães, tendo como condiscípulo o futuro Cardeal Cerejeira. Porém, este filho de Adolfo Salazar, professor de Francês na Escola Francisco de Holanda (e secretário/bibliotecário da Sociedade Martins Sarmento), cedo seria forçado a mudar para Porto, acompanhando seus pais.
Então, já no Porto, frequenta o Liceu Central e posteriormente ingressa na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, terminando o curso em 1915 com a classificação máxima de 20 valores, com a tese de dissertação intitulada “Ensaio de Psicologia Filosófica”.

No entanto, logo no ano seguinte ganha por concurso a vaga de professor contratado em Histologia, passando dois anos depois à condição de professor ordinário e seguidamente, em 1919, a dirigir o Instituto de Histologia e Embriologia . Aí iniciaria notáveis trabalhos científicos no âmbito dos tecidos celulares, anatomia do cérebro e sobre o ovário, investigações que seriam coroados de êxito, como o célebre método tano-férrico de Salazar, que tornou o seu nome conhecido à escala universal. Passa deste modo e reconhecidamente a publicar trabalhos em várias revistas científicas e a participar em inúmeros congressos internacionais, tarefas que concilia com a sua atividade académica e com a vida familiar, após o casamento (sem filhos) com Zélia Barros, em 1921.

Porém, esta intensidade de trabalho acabaria por levá-lo ao esgotamento e à consequente renúncia temporária do magistério universitário e posterior internamento, entre 1928 e 1931.
Já no regresso ao trabalho, em 1932, Abel Salazar passa fundamentalmente a dedicar-se à atividade associativa e pedagógica ligada à juventude, em especial na orientação do “Curso de Filosofia da Arte”. Simultaneamente, consagra-se à escrita, que o leva a várias polémicas, designadamente com catedráticos de Coimbra. Nessa altura filia-se também na maçonaria e acaba por partir para Paris, em 1934, tornando-se colaborador do anatomista Prof. Champy. Subscreve então vários manifestos contra a ditadura portuguesa, postura de militante democrata que lhe valeria a exoneração pelo homónimo Salazar (António de Oliveira).
Fora o tempo do célebre Decreto-lei nº. 25.317 que estabelecia que “os funcionários públicos, civis ou militares, que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política, ou não dêem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado, serão aposentados ou reformados, se a isso tiverem direito, ou demitidos em caso contrário …”, e que em 1935 se traduziu no afastamento de cerca de 33 docentes universitários.
Abel Salazar passa assim a ser impedido de entrar no edifício da Faculdade, bem como de sair do país.
Todavia, este afastamento compulsivo da universidade leva-o a dedicar-se à arte, revelando a sua (outra) faceta de artista e crítico plástico, para além das anteriores caras de cientista, professor, pedagogo, filósofo e escritor de vários temas e vertentes.
Mas o mestre acabaria por regressar à vida académica, em 1941, por sugestão ou influência do Prof. Mário de Figueiredo, sendo integrado no Centro de Estudos Microscópios na Faculdade de Farmácia do Porto.
Porém, dada a sua precária saúde, acabaria por falecer vítima de cancro em 1946, após doença prolongada. Uma vida curta, que Eduardo dos Santos Silva consideraria, aquando do seu elogio fúnebre, vivida com “inteligência deslumbrante, tudo abrangendo e tudo compreendendo (…). Uma figura dum transcendente humanismo, ultrapassando o tempo e o meio em que viveu”.

Atualmente a sua vida e obra encontra-se evocada e à guarda da Casa-Museu Abel Salazar, em S. Mamede de Infesta, uma instituição de utilidade pública tutelada pela Universidade do Porto, cuja missão consiste em promover a investigação, o estudo e a divulgação da obra científica literária, filosófica e artística de Abel Salazar. Uma produção artística esteticamente marcada pela temática social, que em muitos aspetos o tornam como um precursor do neorrealismo português.
De facto, ali se recria o ambiente em que o mestre viveu grande parte da sua vida, constando do seu espólio não só mobiliário e objetos do seu quotidiano como também diversos trabalhos da sua obra plástica, como desenhos em variadas técnicas, aguarelas, óleos sobre madeira, cartão e telas e ainda esculturas, cobres martelados e gravuras, entre os quais se destaca a conhecida pintura “Mercado da Ribeira” (1927). Igualmente, aí se encontram, naquela que foi a sua casa, vários trabalhos de investigação científica, manuscritos, livros, epistolário e jornais e revistas, nomeadamente testemunhos da sua colaboração na imprensa.
No fundo uma convergência de uma significativa obra teórica que abrange a arte, a ciência e a filosofia e que em 2010, aquando do centenário da República, esteve exposta no Museu Nacional Soares dos Reis sob o tema “Transparência – Abel Salazar e o seu tempo, um olhar”.
Em Guimarães além da placa evocativa e seu busto, no Toural, sua memória permanece na toponímia da cidade (Alameda Abel Salazar) e como patrono do Agrupamento de Escolas Abel Salazar, em Ronfe.
No Porto, seu nome é recordado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, criado e inspirado no seu pensamento, em 1976, cujo lema “o médico que só sabe medicina nem medicina sabe” é bem elucidativo do ecletismo do seu patrono. Porém, sua memória consta também na toponímia da cidade invicta, no Largo Professor Abel Salazar, urbe que lhe dedica ainda uma estátua, implantada no Jardim do Carregal.

No fundo, o retrato do “ homem que parece feito de pedaços de vários homens, todos notáveis”, a merecer uma visita a sua casa…

Texto escrito por
Álvaro Nunes

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