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IN MEMORIAM DO CAFÉ ORIENTAL
Por António Lourenço (Professor), em 2018/02/1988 leram | 0 comentários | 33 gostam
“Oh as casas as casas as casas/mudas testemunhas da vida/elas morrem não só ao ser demolidas/Elas morrem com a morte das pessoas (…)”
Este excerto poético de Ruy Belo bem poderia ser um epitáfio elegíaco do Café Oriental, inaugurado em 19 de dezembro de 1925 e destruído em 1968 para dar lugar ao Banco Português do Atlântico, perfazem agora 50 anos.
Porém, neste 2018 – Ano Europeu do Património Cultural, estes versos funcionam mais como um cartaz de protesto e alerta! …

Com efeito, há 50 anos atrás, Guimarães assistiu impunemente a este atentado irreparável ao património e à memória da cidade, perante as máquinas e instrumentos demolidores do poder estabelecido. Sem dúvida, um crime de lesa património que nos envergonha, não só por esta perda irrecuperável, mas também pela indiferença e/ou certa impotência dos poderes públicos instituídos, nesses tempos.

Mas vamos à história, socorrendo-nos da imprensa da época, concretamente “O Comércio de Guimarães” de 18 de dezembro de 1925:
“Amanhã, sábado, vai ser inaugurado, ali no Toural, na antiga casa Magalhães, o mais distinto estabelecimento em conceção artística, em apuro inteligente de gosto, moldado de feição e em costumes à maneira egípcia, apuro meticuloso de uma observação rigorosa, onde tudo se calha em uniformidade, desde as figuras de maior nomeada egípcia, espalhadas com largueza, traçadas em linhas corretas e em avivado tom de pinceladas firmes nos dois panos altos de parede até aos miudeiros motivos de adorno, que são como a nota etnográfica dos nossos esgrafitos portugueses, em enfeite nas frontarias das velhas casas e solares antigos”.

De facto, concebido e montado pelo capitão e artista republicano Luís Augusto de Pina Guimarães (este último apelido, ao que se diz, acrescentado pelas suas ligações à cidade), o café apresentava grandes painéis murais reproduzindo cenas da antiga civilização egípcia, de grande beleza e suntuosidade. Eram os tempos da chamada “egiptomania” que grassava em toda a Europa, que aqui fora acolhida de forma vanguardista e pioneira. Um interesse de cariz universalista que, segundo corre voz, decorreria do impacto da descoberta do túmulo (intacto) de Tutankhamon, em setembro de 1922.
Mas, acima de tudo, um belíssimo projeto de arquitetura, decoração, pintura, escultura e marcenaria de Luís de Pina (herói condecorado das campanhas de África e redator do jornal vimaranense Alvorada), que os empresários José e Francisco da Costa Guimarães, em sociedade com Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa, assumiram como um empreendimento arrojado.

Aliás, este edifício surpreenderia de sobremaneira o escritor, professor e pensador José Sant’Ana Dionísio, quando aqui pernoitou, a propósito de uma visita de reencontro com Raul Brandão. Surpresa de que daria conta numa crónica d’O Comércio do Porto de 11 de setembro de 1926 e da qual respigamos esta passagem:
(…) “A cena toda tem um ar teatral. Há escravos esmagados, pelos carros. Há setas cravadas nos ventres. Há mutilados. (…) De resto, o painel não tem mais de vinte guerreiros, incluindo os solípedes. O pintor – o capitão Pina – é fiel às características da Arte do Nilo, dando às figuras a rigidez da frontalidade, a indigência de dinamismo vital e a ausência desagradável de expressão fisionómica.
Da banda daqui, na última parede, há algumas figuras enormes e bizarras. É uma cena religiosa, duma solenidade macabra. Diante de Osíris, faz-se o julgamento da alma dum defunto. Anúbis, deus com cabeça de chacal, pesa o coração do “réu”. À sessão assiste ainda Shot, o conselheiro de Osíris, e Apet, deus de cabeça de crocodilo.
A sala que aqui tenho está cheia disto. Se não fossem os dois carros – um Lancia de 60 HP, vintesco, e um carro de bois, bíblico de aspeto, paquidérmico de andar – que ali estão parados, lado a lado; se não fosse ainda o sonido brônzeo do campanário defronte e os pedantifs do BNU e os lapuzes que passam diante das portas copiadas do pavilhão de Ramsés II, de bom grado suspeitaria que não estou a escrever dum botequim dum vilório minhoto, mas de um bar de turistas no Cairo, ou, talvez melhor ainda, duma sala do British Museum, em Londres”.
    
De facto, em 1968, Guimarães perderia irremediavelmente esse cosmopolitismo dos ares do Cairo e/ou da dignidade de uma sala do Museu Britânico. Tudo se desfez, irremediavelmente e impunemente!
Mas, com a suprema ironia, ou quiçá por praga ou maldição dos deuses, até o próprio banco aqui instalado, acabaria por ser transferido para outras paragens …
Desconhecemos contudo e ainda o que terá acontecido ao bar egípcio de Braga, que o Sindicato dos Empregados do Comércio local terá plagiado, dez anos volvidos …

Outrossim, ao que consta, “o Café Oriental era muito frequentado e a ele acorriam muitos que desejavam ouvir a conhecida Orquestra Lusitana que lá atuava”.
E aqui, segundo o Notícias de Guimarães de 16 de fevereiro de 1935, se teria despedido essa orquestra, que teve a colaboração de António Guise e Manuel Marques Ferreira – lê-se no livro “Histórias à volta do Toural (2008), de Fernando José Teixeira.

E , para vislumbrar bem o que se perdeu, terminamos exatamente com uma transcrição descritiva do citado livro:
“O café apresentava dois grandes painéis murais com as reproduções de obras primas da pintura egípcia. Um deles mostrava um relevo polícromo de Seti, faraó da XIX Dinastia, existente no seu templo de Ábidos, mostrando o rei, de joelhos, recebendo de Amon os atributos da realeza, tendo, atrás de si, o deus Khnum, com cabeça de bode encimada pelo disco solar. Na parede adjacente, havia o painel da batalha de Kadesh, travada entre os egípcios de Ramsés II e os hititas do rei Muwatali, perto de Kadesh, na Síria actual.
Ladeando uma escadaria que levava à entrada do café pela Porta da Vila, encontravam-se duas notáveis esculturas sentadas: a do faraó Ramsés II e a da princesa Nofret”.

Ao que se sabe, apenas duas notáveis peças de mobiliário estarão (ainda) a salvo e à guarda do Museu Alberto Sampaio. Mas perdeu-se o resto, do qual apenas ficam as fotografias …
É pena …

Texto escrito por
Álvaro Nunes

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