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RAUL BRANDÃO E AS MULHERES
Por António Lourenço (Professor), em 2018/01/09141 leram | 0 comentários | 40 gostam
12 de março marca anualmente a data de nascimento de Raul Brandão (RB), o escritor da Casa do Alto, em Nespereira. Por isso, neste ano de 2018, Ano Europeu do Património Cultural, RB será novamente recordado na freguesia e no concelho.
De facto e segundo declarações públicas de Adelina Paula Pinto, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Guimarães, RB manter-se-á vivo em 2018, após o vasto leque de iniciativas levadas a cabo no ano findo, aquando das comemorações dos 150 anos do seu nascimento. Deste modo, encontra-se prevista uma (re)edição de algumas das suas obras, numa parceria com o jornal Público, bem como a continuação do Festival Literário Húmus, desta feita centrado no tema da mulher.
Com efeito, comemorando-se a 8 de março o Dia Internacional da Mulher e conhecendo-se a forte ligação de RB a três mulheres da sua vida (mãe, criada e esposa), o tema dará seguramente pano para mangas e poderá até propiciar uma abordagem de atualidade sobre a outra metade do céu e o amor em particular:
“A única coisa boa da vida é o amor”, escreve RB na obra “A Morte do Palhaço” (1926); pois, como adiante acrescenta “amar uma linda mulher ou amar uma ideia, amar seja o que for a valer na vida, é um bordão a que nos apegamos e que nos ajuda a caminhar até à velhice”.
Porque, como alude na obra “Os Pobres”(1906): “pelo amor conhece-se tudo, até o que os sábios ignoram”.

Efetivamente, foi o amor por Maria Angelina, com quem viria a casar na Igreja Paroquial de Nespereira, numa quinta-feira, a 11 de março de 1897, há cerca de 120 anos (ela com apenas 18 anos e ele próximo dos 30), e acima de tudo a vida apaixonada vivenciada em comum, parte dela vivida na Casa do Alto, que terá motivado o escritor a algumas reflexões alusivas, em especial no segundo volume das suas “Memórias” (1925):
“Julgava que o amor ia diminuindo com o tempo – e o meu amor não cessa de aumentar até à morte e para além da morte”.
(…)
“Um dia destes temos de nos separar, e é natural que seja eu, que sou mais velho, o primeiro a partir… Antes porém, quero dizer-te que te devo o melhor da vida. Foste tu que me desvendaste o amor que eu desconhecia”.

Conheceram-se em Junho de 1896, quando então o alferes Raul Brandão se apresentara no 1º. Batalhão do Regimento de Infantaria 20, estacionado em Guimarães; e logo a partir daí começou o jogo amoroso, a que não faltaram cartas românticas, nem sequer uns versinhos como estes, que poucos acreditarão ter saído da pena do escritor. Mas o amor tem destas coisas:
“Na tua esquivança não abrandas
Se longe um do outro andamo-nos buscando,
- Tu, minha amada! Os beijos que te mando.
- Eu, minha vida! Os beijos que me mandas.




No entanto todos sabem que me evitas,
E riem, riem deste sonho meu …
Doudos! Que importa que me fujas?
Eu vivo contigo, e tu comigo habitas?

Foges-me? A sorte que prazeres cria
E a muitos só concede a noite,
Fadou-me para ti – como fadou-te,
- Não fujas mais! para ser minha um dia!
 
 Mas acabaria por não fugir! E neste insistente arrastar da asa, um primeiro encontro ocorreria na festa de S. João de 1896. Uma noite inesquecível em que a principal atração fora um enorme balão, do artista Domingos José da Costa, conhecido por Véstia, mas cujos protagonistas foram decididamente Raul e Angelina. Uma festa popular que se prolongaria pela madrugada fora pelas ruas da cidade, com os seus descantes e que, curiosamente, acabaria por convergir na Fonte Santa. Um amor de S. João que acabaria por resistir ao tempo:
“ É certo: cada no que passa é um laço que nos prende e quanto melhor conheço a tua alma, mais me purifico ao seu contacto. Não só fazes parte do meu ser, mas da minha consciência. Chego às vezes a supor que és a minha consciência”.
Mas, para além da esposa Maria Angelina, duas outras mulheres marcariam o escritor: a sua criada Maria Emília e a sua mãe, Laurinda Laurentina.
“ A Maria Emília foi até morrer nossa criada. Estou a vê-la, de bigode branco e olhos espertos, dum azul já desbotado pela velhice, mas teimando em exprimirem ternura até à morte. Vejo-lhe a boca desdentada, a sorrir, e sinto nas minhas mãos o calor das suas mãos e o dedo grosso e enorme que me afagava quando ia para a mestra. Doente duma perna, sempre a conheci a mancar, atravessando a vida a mancar e a sorrir. Porque é essa expressão mais íntima e mais bela da sua alma – a alegria na desgraça”.
 E sobre a mãe:
“Dela herdei a sensibilidade e também o sonho. Bastava que a bica do quintal deitasse menos para a minha mãe adoecer. (…) Às vezes, tendo corrido o quintal numa exaltação, corria para ela e desatava aos soluços com a cabeça no seu colo. Minha mãe não me dizia palavra, nem sequer me estranhava porque via em mim reproduzida a sua sensibilidade exagerada (…)”.
Porém, a mulher é sempre elogiosamente venerada nas reflexões/memórias brandonianas:
“A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os pássaros aquecem o ninho. Sua vida dá luz, para alumiar os outros. Foi assim com tão pequenos meios, que me ensinaste. (…) Os teus dedos ágeis trabalham a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso e a nossa vida espiritual”.
(…)
“E como tu milhares de seres têm compreendido a vida em silêncio, aceitando-a sem exageros. Nas mãos das mulheres até as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o pão, lançar a teia – assumem um carácter sagrado. Elas passam desconhecidas e dispõem dum poder extraordinário. Mantêm a vida ordenada com um sorriso tímido. A mulher está mais perto que nós na natureza e de Deus”.
Honremos este legado, (re)lendo as suas Memórias (de teor pessoal e histórico) …


Texto escrito por
Álvaro Nunes


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