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AUTO DO DÍZIMO DE URGEZES 2018
Por António Lourenço (Professor), em 2017/12/14301 leram | 0 comentários | 53 gostam
O Dízimo de Urgezes esteve de novo na rua, em 4 de dezembro último.
Com efeito, numa altura em que a Renda ou Dízimo de Urgezes comemora o seu tricentenário (ler a propósito o texto “300 anos da Renda de Urgezes”), mais uma vez se levou a cabo esta costumeira posse Nicolina, restaurada nos finais da década 90 pelo Presidente da Junta de Freguesia, Manuel Nunes, por sugestão do Nicolino-mor Hélder Rocha. Quiçá e por isso, o Auto do Dízimo de Urgezes deste ano é dedicado pelo seu autor, Paulo César Gonçalves, a esta efeméride e a ambos os citados.
Ora, este ano e contrariamente ao habitual, o Auto do Dízimo de Urgezes centrou-se quase exclusivamente na crítica aos problemas da freguesia, omitindo-se os problemas educativos e camarários, como anteriormente era useiro e vezeiro:

(…)
“Estradas remendadas,
com buracos aqui e ali
Bermas de passeio estragadas,
(bom convite para um xixi);

A Maina parece um estaleiro
quando é que vem o navio?
Houvesse chuva (ou até aguaceiro),
teríamos um lago (ou quem sabe, um rio);

E o campo dos Amigos cá da Terra?
Pelo que parece, não tem dimensões;
Vai ter de se fazer guerra
Para chegarem os necessários tostões?
(…)

A “António Costa Guimarães”
parece uma rua de Paris
tem mais carros do que Caneiros pães,
não sei quem assim a quis;”.
(…)
Uma alusão à quebra de atividade do Centro para a Criação, Arte e Cultura da Vaca Negra e ao “duplo rosto” da freguesia rematam as denúncias satíricas:
“A Vaca Negra está parada,
(pouco ou nada lá se faz);
Para quem ao lado passa e a vê da estrada,
a metáfora é o cartaz

Há quem chame, Urgezes,
Rapariga de duplo rosto:
cá em cima usas galochas, e muitas vezes,
lá em baixo usas sapatos de Agosto;”
Mais adiante e a finalizar, o louvor e, paradoxalmente, a mordaz apreciação crítica ao facto de o Agrupamento de Escolas Gil Vicente ter assumido um “duplo rosto” relativamente às Nicolinas:
“Termino com voto de louvor
ao Centro Escolar, que a Honra salvou
em ano tricentenário, por puro Amor
à Tradição que a EB 2,3 desrespeitou;

Merecias melhor, Mestre Gil,
mas não me alongarei mais no sermão;
Cumpra-se já a Tradição, venham mais trezentos (ou mil),
entregue-se o Dízimo à nossa Comissão!”.

Efetivamente, desde 2002, aquando da assinatura do Protocolo Nicolino, que o 9º. ano vem participando ativamente no denominado Projeto Nicolinas, situação que unilateralmente foi quebrada este ano, a exemplo do que ocorrera por parte da Comissão de Festas cerca de dois anos atrás.
De facto, em 2017 e não obstante os 300 anos da Renda de Urgezes e dos 200 anos de Pregões Nicolinos (ler textos alusivos, em separado), bem como os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, que na obra “A Farsa” narra uma posse Nicolina, os centenários ficaram reduzidos aos “serviços mínimos” e o projeto vanguardista desta escola/agrupamento, que chegou a merecer difusão na TVKtvê, afeta ao Gabinete de Inovação, Formação e Tecnologias da DREN (Direção Geral de Educação do Norte), no ano de 2009, quedou-se e resumiu-se ao q.b.
Curiosamente, quando atualmente se corrobora a inclusão das Festas Nicolinas nos currículos das escolas de Guimarães (ler a este propósito o artigo de Lino Moreira da Silva na revista “Mais Guimarães” de dezembro deste ano) e se conhecem as intrínsecas ligações da freguesia a esta secular tradição dos estudantes vimaranenses. De facto e em contraciclo, parece manifestar-se a queda desse pioneirismo, nos atuais tempos de esmorecimento, porventura de desmotivação, que certamente uma avaliação docente (mais) rigorosa contrariaria.
Outrossim, transparece a necessidade de uma melhor articulação das parcerias (escola através das associações de pais e estudantes, autarquia local e forças vivas locais), que muitas vezes não têm o sentido atempado da oportunidade, deixando arrastar as situações e/ou ficando a reboque dos acontecimentos.

Realmente, as Nicolinas são um projeto que concilia de forma complementar o fazer e o saber-fazer e o uso adequado de linguagem das diferentes áreas do saber, além de ludicamente agradar aos alunos. Por outro lado, são um exemplo pleno de ligação escola-meio e um projeto pertinente de matriz interdisciplinar e até transdisciplinar, se for devidamente enquadrado e trabalhado (como já o foi), porque de facto implica esforço acrescido e dá trabalho …
Por isso, se pedagogicamente desejamos promover e valorizar o património cultural vimaranense (ainda que o pessoal docente seja oriundo de outras paragens), se queremos aprofundar os conhecimentos sobre a história e a memória secular da cidade, se …., obviamente as Nicolinas deverão estar presentes como projeto estratégico de qualquer escola/agrupamento concelhia. Ademais, porque o projeto visa formar para a cidadania responsável, pretende mobilizar saberes em contexto de aprendizagem, aspira a propiciar a interação entre parceiros sociais e a fomentar o convívio, a autoestima, a autonomia, a criatividade e o trabalho cooperativo …

Ao longo dos últimos 15 anos a escola/agrupamento tem dado conta, com altos e baixos, destes propósitos, com atividades diversas, envolvendo várias disciplinas e recursos locais:
- concursos de quadras satíricas ou de montras nicolinas, no comércio local;
- declamações de pregões;
- ensaio de toques de caixas e bombos nicolinos;
- organização de Colóquios Nicolinos sobre o sentido e espírito das festas;
- trabalhos de pesquisa, designadamente para o jornal escolar e clube de teatro (recorde-se a encenação da peça alusiva à Senhora Aninhas (mãe dos estudantes), em 2010, aquando dos 150 anos do seu nascimento;
- visitas de estudo e/ou guiadas, nomeadamente a artesãos nicolinos;
- organização de roteiros nicolinos e/ou peddy-paper sobre o tema, nas ruas da cidade;
- execução de com carro alegórico e fitas nicolinas para o cortejo das Maçãzinhas;
 -etc

 2018 é o Ano Europeu do Património Cultural, no qual as Nicolinas se inserem, uma vez que está em curso a sua candidatura a património imaterial da humanidade. Deste modo, a efeméride poderá novamente constituir um bom ensejo a repensar e retomar o projeto, uma vez que estas festas (já) fazem parte do património vimaranense e escolar.

Texto escrito por
Álvaro Nunes

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