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200 ANOS DE PREGÕES NICOLINOS (Parte II)
Por António Loureiro (Professor), em 2017/10/1916 leram | 0 comentários | 2 gostam
Os Pregões do século XX mantêm a tónica de incentivo às Festas Nicolinas contra os seus detratores e os esmorecimentos, a par das temáticas habituais: a cidade, o Vitória, os eventos marcantes e a exaltação das damas.
200 ANOS DE PREGÕES NICOLINOS (2)
Os Pregões do século XX mantêm a tónica de incentivo às Festas Nicolinas contra os seus detratores e os esmorecimentos, a par das temáticas habituais: a cidade, o Vitória, os eventos marcantes e a exaltação das damas.

Com efeito, a manutenção da chama viva das festas é uma constante em vários pregões, como o do ano de 1905, de João de Meira:
“Enquanto em Guimarães houver um Estudante
Com força para tocar, com alma, uma zabumba,
A Festa viverá altiva e triunfante
E ninguém poderá acompanhá-la à tumba!”

Essa mesma exortação é retomada, por exemplo em 1935 no pregão de Delfim Guimarães, recitado por Helder Rocha:
“Ah!não! não morrerão as Festas deslumbrantes
Da mocidade em flor enquanto houver estudantes.
Que vivam de beleza! Enquanto houver Poetas
Que cantem, com ternura, as nossas Capas Pretas!
Não morrerão jamais as Festas que o Pinheiro
Bem alto as anuncia, ao burgo no terreiro!
Não morrerão jamais as Posses folgazãs
O Magusto, o Pregão, a Entrega das Maçãs
Na ponta duma lança às Damas tão formosas!
E não, não morrerão as Danças graciosas!”.

Ou, como cantaria Leão Martins Guimarães, no pregão de 1942:
“Pode o Mar dar repolho e a Terra bacalhau
Não morrerá a festa em honra a Nicolau!”.

Exaltação que se estende também à cidade, patente por exemplo no Pregão de 1925 do Padre Gaspar Roriz:
Ó Guimarães, ó minha pátria amada
adora-te a minha alma em êxtase ajoelhada
ao recordar que foste, em tempos que lá vão,
berço de Portugal, o berço da Nação”.

Os acontecimentos históricos como as guerras mundiais, em especial as dificuldades desses períodos, perpassam também em vários pregões.
Em 1910, Jerónimo de Almeida, escreve sobre a Implantação da República:
“Soldados infiéis à velha monarquia
Atordoai o ar com mais fuzilaria
Num hino sem compasso, um hino à liberdade
Rompendo triunfal! Saúde e Fraternidade”.

Por seu turno, em1943, Delfim Guimarães, alude os tempos difíceis das guerras:
“O que nos vale, ó Santo, é o vinho que é a rodos!
O povo agora pode entrar nos tascos todos,
Beber até cair, que o vinho é tantas vezes
A vida de um milhão ou mais de portugueses”.

E prossegue, no seu pregão de 1944:
“Levou-nos o arroz, aquele arroz de frango
Malandro, bailarino, dos pinchos, gorduroso
Aquele arroz no tacho a latejar em tango …
Levou o seu irmão de forno saboroso”.

Tudo levavam, nessa altura, pois até a estátua de D. Afonso Henriques mudara para junto do castelo:
“Tudo, tudo levou! … Até o Rei Afonso
Levado a novo posto, o quanto sofre lá!...
Acha o lugar deserto, um tanto esconso,
Não tem o seu Toural, a vida, o bruháhá …”

Tem agora o “bruháhá” dos turistas, passando de conquistador a conquistado!

O nosso Vitória é outra das pedras de toque dos pregões nicolinos. A primeira referência surge no Pregão de 1936, da autoria de Delfim Guimarães, no ano de sua consagração como campeão distrital:
“ Alberto Augusto, um xi! Ricoca, um grande abraço!
A ti, Zé Maria, um perfumado cravo!
Ao Zeferino a mão, um amistoso laço!
Um beijo ao pequerrucho e azougado Bravo!
Ao “onze” do Vitória, alfim, o nosso querer!
Hurrah! Por Guimarães! Vencer! Vencer! Vencer!

Vitória vencedor, que se concretizaria em 1958 com a subida à primeira divisão, glosado pela pena de Delfim Guimarães, em sotaque abrasileirado:
“Seu moço, seu Vitória, então como é que está?
Aperte os ossos meus … Você não é di lá
Embora em feição de luso-brasileiro …
Você dá passo em frente, e é que está gingueiro!...
Você, quando si foi primeira divisão
Que festa você teve em viva reinação!!”.

Seguem-se depois várias citações, com destaque para o pregão de Joaquim do Amaral P. Silva, em 1988:
“Mais eis que já começou a sair os trunfos
O Vitória em si começa a ganhar fé
E traz para Guimarães na senda dos triunfos
A Super Taça Cândido de Oliveira. Olé!...”

Mas também os momentos menos bons, referidos por exemplo no pregão de 1970 de António da Rocha e Costa:
“O Vitória brindou-nos com tamanho susto
Usando e abusando da nossa paixão
Mas conseguiu manter-se embora muito a custo
Ente os manda-chuvas da grande divisão
Indo buscar ao Porto o tal pontinho justo
Que fez Braga ficar viúva do caixão
Que andou a construir no seu desejo “augusto”
De lançar pra a rua uma nova procissão”

De facto, a rivalidade Guimarães-Braga é também muitas vezes aflorada, como ocorre, por exemplo, no pregão de 1931 de Jerónimo de Almeida:
“Só tu, formosa Penha, eras capaz
De nos dares aquilo que nos falta:
Já o Sameiro fica para trás,
Porque a Serra da Penha é bem mais alta!
(…)
É por isso que Braga tem ciúmes
E ande triste a pensar no Bom Jesus
Desde que ergueu o olhar aos altos cumes,
Descortinando, ao longe, estranha cruz …”.

Ciúmes que A. Meireles Graça no seu Pregão de 1970 transforma em cooperação:
“Senhor Governador: agora vai traçado
Como nova aliança aberta a nova frente
O sonho distrital da linda auto-estrada
A ligar-nos, veloz, ao Porto de repente!
(…)
Um braço vai partir à Braga bem amada
Outro prá Guimarães, ainda mais urgente.
E teremos assim a estrada da união
Que vai do nosso Minho as vistas alargar
Trazer grande progresso ao povo, à região
De que somos o Berço e Braga lindo Altar!”

Situação e crises políticas que Carlos Poças Falcão antecipa no Pregão de 1983, quer a nível nacional quer local:
“Um buraco o Orçamento diz tem o das Finanças
Vai daí mais um buraco vai haver em cada cinto!
As leis que o FMI congemina não são mansas
Como eternos mexilhões entre a rocha e maré brava!
(…)
“E melhor faria ir pregar pro campo
Andam os maiores da terra em brava luta
Contra os cismáticos irmãos de Vizela
Azeda-se a sopa, acende-se a disputa
O diálogo é de surdos à volta duma gamela”.

 Voltaremos, para terminar, com um texto sobre os Pregões deste século …





Texto escrito por,
Álvaro Nunes


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