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300 ANOS DA RENDA DE URGEZES
Por António Loureiro (Professor), em 2017/10/1615 leram | 0 comentários | 2 gostam
A Renda de Urgezes, segundo os lançamentos no livro de “Assentos dos Arrendamentos das Igrejas, Capelas e Ermidas”, aparece corroborado num assento de 1717.
A Renda de Urgezes, segundo os lançamentos no livro de “Assentos dos Arrendamentos das Igrejas, Capelas e Ermidas”, aparece corroborado num assento de 1717, referindo o uso e costume dos estudantes de S. Nicolau ao dízimo, proveniente das rendas da Igreja de Urgezes.
Perpassam assim, em 2017, 300 anos da primeira referência documental a esta tradição, consignando que “o rendeiro de Urgezes satisfará aos Estudantes do Senhor S. Nicolau, pelo seu dia, a porção a que é obrigado com toda a boa satisfação, como é uso e costume e foi sempre”.
Este dízimo seria inclusivamente especificado num assento de 1744, registando que “há uma costumeira de dar aos Coreiros em dia de S. Nicolau os frutos seguintes: 200 maçãs, ½ rasa de tremoços curtidos, meia de nozes, 2 alqueires de castanhas assadas e duas dúzias de palha, de grandes molhos”. A estes frutos, “dois almudes de vinho” seriam acrescentados, certamente para afinar as goelas.

Ora, terá sido esta renda ou dízimo de Urgezes, cujo cumprimento foi quebrado em 1832 pela extinção oficial das rendas e que na altura motivaria um litígio judicial entre os estudantes e os cónegos da Colegiada, que estará na origem das Posses Nicolinas atuais, uma vez que os estudantes foram forçados a reinventar esta tradição ancestral, após a sua perda.

Porém, a Renda ou Dízimo de Urgezes acabaria por ser restaurada.
“E tinha de ser de novo o Povo de Urgezes a dar mostras do carinho que o concelho de Guimarães mantém pelas suas Tradições e as suas memórias; tinha de ser ele a regular, em boa paz e tranquilidade, o restabelecimento da velha costumeira!
No ano de 1988, no seguimento de uma sugestão do Nicolino Mor Helder Rocha, a Junta de Freguesia de Urgezes levou à votação da sua Assembleia uma proposta que, favoravelmente votada, lhe permitiu assumir o compromisso de restabelecer a Renda de Urgezes e proporcionar aos seus Estudantes - os Nicolinos de sempre – a retoma da velha Tradição.
Gesto lindo!
A merecer a gratidão dos beneficiados e o reconhecimento de todos os Vimaranenses que trazem a Festa no coração.
Obrigado Senhores da Nobre Urgezes” – citamos A. Meireles Graça, um ilustre Nicolino.

Com efeito, desde a data citada, a Junta de Freguesia de Urgezes tem assumido, a 4 de dezembro (atual data das Posses Nicolinas) a restauração desta secular tradição que intrinsecamente liga as Festas Nicolinas à freguesia desde tempos de antanho, quer neste número concreto quer nas Maçãzinhas, pois estes pomos da discórdia em termos bíblicos, agora colocados romanticamente ao serviço da mulher e do amor, seriam provenientes da Renda ou Dízimo de Urgezes.

Face a esta efeméride, não pode por isso a freguesia de Urgezes e as suas forças vivas e instituições ficarem indiferentes. Antes, porém, devem reforçar estes laços fortes com um programa ainda mais abrangente, como por exemplo procedendo à reconstituição da cavalgada entre Urgezes e a cidade, como outrora se fazia, após a tomada desta posse.
A este propósito respiguemos um excerto do periódico “Religião e Pátria”, de 5 de dezembro de 1863:

“No domingo de manhã, foram os estudantes a Santo Estevão de Urgezes buscar o simulacro da renda, que vieram depois distribuir pelas madamas, todos a cavalo, e trazendo na frente a filarmónica da cidade. De tarde, saíram dois bailes, um de camponeses suíços, e outro em gosto caricato, trajado conforme a época de Luís XIV”.

Mas como 2017 comemora também os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, que ironicamente faleceu a 5 de dezembro, nada melhor no fecho comemorativo desta efeméride concelhia do que recordá-lo com a recriação a Posse de 1903, que o escritor tão bem relata, com vivacidade, no seu texto “Cucusio”, inserido no capítulo III da obra “A Farsa” e do qual transcrevemos algumas passagens:

“ – S. Nicolau! S. Nicolau!...
É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão oscila e se espraia até à muralha da igreja.
(…)
Diante do prédio, no silêncio e na noite, três vezes chama:
- Cucusio! Cucusio! Cucusio! …
Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada.
(…)
Sente-se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo:
- Pronto, meus senhores, cá está o Cucusio!...
E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro – como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila.
A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem, o pendão oscila levado pela Testa, no alto daquela onda, e o Sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado”.


Autor do texto,

Professor Álvaro Nunes


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