IN MEMORIAM DE MARIA VELHO DA COSTA | |
Por Conceição Páscoa (Professora), em 2020/05/27 | 583 leram | 0 comentários | 162 gostam |
Este mês, mais um escritor mudou de morada: Maria Velho da Costa. Assim, em sua memória, remetemos estas linhas de homenagem para o seu novo endereço, à laia dum requiem evocativo. | |
Maria Velho Costa (MVC) nasceu em Lisboa a 26 de Junho de 1938 e faleceu neste último 24 de Maio, com 81 anos. Considerada uma das vozes renovadoras da Literatura Portuguesa, Maria Velho Costa legou-nos uma obra importante, em especial como contista e romancista, não obstante algumas incursões pelo teatro com a obra “Madame”, galardoada com o Grande Prémio do Teatro (2000) e até na poesia. Recorde-se, por exemplo, o seu poema “Revolução e Mulheres”, do qual transcrevemos uma breve passagem: “Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à Junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. (…) Elas encheram as ruas de cravos Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes Elas trouxeram alento e a sopa aos quartéis e à rua (…) Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra (…) Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado São elas que acordam pelas manhãs as bestas, os homens e as crianças adormecidas”. A condição feminina e a consciência social das mulheres foram, efetivamente uma das tónicas fundamentais da sua obra. Com efeito, Maria Velho Costa é coautora com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno das “Novas Cartas Portuguesas” , que reescrevem as cartas seiscentistas da freira do convento de Beja, Mariana Alcoforado ao oficial francês, Claude Barbin, obra que lhes valeria um processo judicial sob a acusação de atentado à moral, que graças ao 25 de Abril de 1974 acabaria suspenso. No entanto, a escritora destacar-se-ia acima de tudo pelos seus romances Maina Mendes (1969), “Casas Pardas” (1977), que viria ser adaptado a teatro, ou “Myra” (2008) que seria agraciado com vários prémios literários. Diga-se de passagem, que a autora acumulou uma imensidade de prémios e condecorações. Menciono, como mero exemplo, o Prémio PEN da Novelística com o romance “Missa in Albis” (1988), cito o prestigiado Prémio Camões, atribuído em 2002, e neste mesmo ano , a condecoração com Grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique; e, mais tarde, (2011) a atribuição da Ordem da Liberdade. Outrossim, a liberdade foi igualmente um dos vetores fundamentais da sua vida, bem evidente no seu discurso de 2013, aquando da receção do Prémio da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores: “Os regimes totalitários sabem que a palavra e o seu cume de fulgor, a literatura e a poesia são um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia de espírito, mais pobreza na pobreza”. Porém, para além da escrita, MVC, licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa, seria profissionalmente professora do ensino secundário e exerceu funções como leitora do King´s College, em Londres. Paralelamente, as suas atividades abrangeriam ainda a Secretaria de Estado da Cultura (1979) na qualidade de adida cultural no governo de Lurdes Pintassilgo, funções que viria também a assumir em Cabo Verde (1988-1991), onde aprendeu crioulo e despertaria para a crioulização, patente no romance “Irene ou o contrato social (2000) Porém, esta ação cultural estender-se-ia ainda a presidência da Associação Portuguesa de Escritores, sendo a primeira mulher a assumir este cargo e à participação na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, bem como à colaboração com vários cineastas portugueses, entre as quais a sua amiga Margarida Gil, que sobre MVC testemunha: “Li nos livros quase todos, sempre como uma admiradora fervorosa, e a achá-los “do catano”, de tirar a respiração. Todos marcados por aquele esplendor da palavra que ela sempre encontrava algures na prateleira da sua mente”. Todavia, como diz a escritora Luísa Costa Gomes “(devemos) ler os livros que publicou (…) Está tudo nos livros, a voz dela está lá toda, viva”. Essa é de facto a melhor homenagem que lhe poderemos prestar … Por Álvaro Nunes | |
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